Manuel João Baptista Rosa Estava na tropa com destino marcado para Angola. Era aspirante a oficial miliciano, no Lumiar, unidade que ocupou a RTP com um pelotão comandado pelo capitão Bento, oficial do MFA. Soube do golpe no dia 22 pela manhã, quando fui abordado na parada por um ex-colega do ICL (ISCAL), o Teixeira Mendonça, à época homem de esquerda, que se evidenciara nas lutas estudantis, o qual pediu a minha adesão ao golpe com o argumento de que necessitavam de pessoal de confiança. Hesitei, com medo das consequências caso falhasse, mas o capitão Bento que estava por perto, interveio na conversa e convenceu-me que desta vez não falhava. Não esqueçamos que o 16 de Março tinha abortado e os responsáveis presos. Nos dias 22 e 23, à noite, o grupo contactado reuniu num edifício particular onde se discutia a natureza ideológica do golpe, que era praticamente desconhecida. Mas chegavam sempre à mesma conclusão: pior do que estava não podia ficar, pelo que era de arriscar. Neste grupo destacava-se o António Reis. No dia 24 não houve reunião facto que estranhei. Às 23 horas estava num bar perto do Estádio José Alvalade quando o Teixeira chegou e fez-me sinal para o acompanhar. Percebi logo que tinha chegado a hora. Fomos para o quartel onde todos os elementos contactados se equiparam para combate, tendo sido constituídos dois grupos: um para assaltar a RTP e outro para executar outras operações dentro do quartel (prisões e tomadas de posições defensivas). No início da madrugada, soubemos do arranque das operações em todo o país, através duma canção transmitida pela rádio, facto que nos deixou mais descansados. Quando acordei, depois de passar quase toda a noite em claro, deparei-me com milhares de pessoas que passavam junto ao quartel manifestando enorme alegria, aprovação pelo que se estava a passar e orgulho pela iniciativa dos militares. Depois fui para Angola onde também participei no processo de descolonização, um dos objectivos do MFA, situação muito complicada devido à rivalidade entre os movimentos independentistas, que decidiram pôr aquele território a ferro e fogo, provocando milhares de mortos e refugiados, primeiro acolhendo-se dentro dos nossos quartéis e depois fugindo, de qualquer modo, para o "puto", como então era designado Portugal. Nas nossas fileiras também houve mortos, ao contrário do que muitos pensam. Só no meu quartel aconteceram três. Sinto-me, portanto, orgulhoso e sortudo por ter participado em acontecimentos tão marcantes da nossa história contemporânea e que tanto contribuíram para aquilo que hoje somos.