"O Sol punha-se, regressava depois de ter desenhado quando, abrindo a porta do estúdio, vi perante mim um quadro indescritivelmente belo. Inicialmente fiquei estupefacto, mas depois aproximei-me daquele quadro enigmático, absolutamente incompreensível no seu conteúdo e composto exclusivamente por manchas de cor. Finalmente compreendi: era um quadro que eu tinha pintado e que tinha sido apoiado sobre o cavalete virado ao contrário." É assim que V. Kandinsky nos conta algo que expandiu para sempre as fronteiras epistémicas e éticas da Arte universal: o chegar de uma arte não-representacional, dita "abstracta". Tal chegada revela-nos também as possibilidades revolucionárias de uma nova ética da visão. Com efeito, ver, para além de uma mera acção fisiológica, não é um exercício óbvio. O que Kandinsky também conta-nos, neste episódio, é que um ver apenas guiado pelas convenções, preconceitos e normas gregárias configura um acto conformista que não nos possibilita esgotar todas as potencialidades da visão; um ver mais amplo e original é sempre possível. De facto, ver sem interpretar, sem impor ao que é visto um significado exterior a si mesmo, é o derradeiro acto libertário, de agir sem esforço, de Deixar-Ser sem forçar a ser, o derradeiro acto ético radical. Sigamos pois, nem que seja de vez em quando, o profundo exemplo ético de Kandinsky, assumindo outros pontos de vista, que não só o convencional antropocêntrico; abrindo-nos ao maravilhoso e ao mistério do mundo e da natureza, olhando para as coisas e os seres como se fosse a primeiríssima vez que os víssemos. Assumindo um ver inaugural, pondo a nossa moldura de pernas para o ar, aceitando a vida como ponto de vista (biocentrismo), respeitando-a e valorizando intrinsecamente através da sua infinita multiplicidade de seres e aconteceres... O futuro é tão inaugural quanto o passado.

Miguel Santos, Cooperante da "Espaço às Artes - Cultura Ponto Zero"