António Ferreira Para quem não sabe, Berta Cabral, figura da nata social-democrata açoriana, recentemente, recebeu um rebuçado com recheio de Estado, do primeiro-ministro Passos Coelho, isto é, um cargo no governo: Secretaria de Estado da Defesa. Quantos, na nossa região, não devem estar a pensar: «Porque não para mim, um rebuçado de Estado destes?» Estes meninos e meninas, bem podem sonhar mas sejamos honestos: quantos "quadros" teve o PSD-M com valor e brio, para serem Secretários de Estado? Pelos vistos foram poucos, pois, se a memória não me falha, o PSD nunca achou as figuras do PSD-M com relevo ou estatuto suficiente, para entrarem num elenco de um governo seu. Estranho, para um "povo superior"... Para ser sincero, pouco me importa esta injustiça com os sociais-democratas madeirenses. O que me importa é outro assunto, bem mais importante. O que somos? Nós, madeirenses, o que somos? No país, na Europa, no mundo? A questão parece sugerir que não temos coisas maravilhosas na nossa região, temos, claro que sim, sou obrigado a reformular a pergunta para prevenir equívocos: nós, madeirenses, como comunidade, como colectivo, o que a todos nos orgulha? O que nos torna distintos no mundo, como colectivo, como comunidade? Acrescento uma acha na fogueira: depois do 25 de Abril, no Portugal contemporâneo, o que fizemos que nos encha o peito de vaidade? Bem sei, muitos responderão "Autonomia"; outros dirão, as "estradas, habitações, progresso". Eu respondo, a nossa autonomia é meramente administrativa. A nossa autonomia, em sentido lato, são as guelras de alguns políticos ocos, e os respectivos ecos saloios. A nossa autonomia não canta, não escreve, não pinta... Ninguém vibra com a nossa autonomia. Não temos cultura, não há nada que distingue a nossa autonomia e o pior é que a autonomia serve mais para alimentar uma casta, do que para servir os madeirenses. Defendo uma auditoria extensiva a todos os departamentos do Governo Regional, um "Cuba Livre" a todas as capelinhas da autonomia, para os madeirenses compreenderem verdadeiramente para que esta serve, é um reduto para que gente sem brio ou valor possa viver à francesa. Quanto às "estradas, habitações e progresso", lembro que a nossa economia gera desemprego e está em frangalhos. Precisamos de criar emprego e gerar riqueza, e os nossos políticos preocupam-se mais com o seu lugar no futuro. Não temos um plano, uma ideia, um projecto para dar a volta por cima. O lugar de muitos madeirenses poderá ser a emigração. Isto é a nossa autonomia: um lugar onde não podemos viver, um lugar sem liberdade e dignidade. Não admira que aqui não haja Berta(s) para ninguém, os madeirenses precisam de se reinventar. Se queremos Berta(s), temos que fazer por isso.