Durante o cerco a Jerusalém, terão perguntado a Salahuddin – Saladino para os cristãos – o que valia aquela cidade. Terá respondido “nada e... tudo”. Nada, porque não tinha grande valor estratégico e poderia, pura e simplesmente, ser ignorada. Tudo, porque era um símbolo de poder. O símbolo.

Com as devidas diferenças (enormes), é algo semelhante que se passará, este ano, no Funchal. A batalha pela câmara já começou e não restam dúvidas: ganhar a capital é fundamental. Para o ainda partido do poder e para os candidatos a essa posição.

Com a saída de Albuquerque, impedido de concorrer por uma lei de limitação de mandatos que tem muitos defensores mas que é uma das maiores hipocrisias políticas - os únicos ‘limitados’ são os autarcas –, o cerco ao Funchal começa com muitas incertezas. Desde logo quem ai em vantagem.

Bruno Pereira já foi o sucessor indiscutível de Albuquerque, mas passou para o outro lado, na luta interna do PSD-M. Apresentou uma lista feita à imagem do seu chefe, Manuel António, mas não conseguiu atrair nenhum dos ‘albuquerquistas’ importantes.

O ex-vice-presidente tinha uma boa imagem junto da população quando exercia essas funções, mas multiplicam-se as dúvidas sobre o que valerá, agora, depois de perder o apoio do ainda presidente. Se só contar com o eleitorado de Jardim, no Funchal, dificilmente atingirá a maioria. Até pode ser muito difícil vencer.

Logo em Janeiro, o CDS avançou com o seu líder para atacar a maior câmara da Região. Uma estratégica de antecipação que chegou a ser considerada precipitada, mas que pode ter resultados práticos: conquistar parte do eleitorado fiel a Albuquerque e que dificilmente votará no PSD de Jardim. Se conseguir essa contabilidade, José Manuel Rodrigues é um candidato de peso. O seu partido anda próximo dos 20%, no Funchal e esse ‘extra’ de descontentes da ala ‘laranja’ pode permitir um resultado surpreendente.

Além da já previsível candidatura do PCP, que vai apostar na reeleição de um vereador, a terceira força de peso nesta corrida aberta para Outubro é a que mais dúvidas levanta. A coligação alargada, promovida pelo PS e que teve o apoio do PTP, PND, MPT, PAN e BE, é uma aposta muito forte para conquistar a câmara. Embora as coligações raramente representem, nas urnas, a soma das parcelas partidárias, a escolha de independentes para formar a lista tem uma vantagem: a surpresa para o eleitorado.

Conhecidos os contendores, fica uma certeza: até ao Verão, o combate será duro. Muito duro, como já começou a ser desenhado no jornal oficial do poder que parece apostar em denegrir tudo o que se atravessar no caminho dos ‘seus’. Uma arma que já foi forte, mas que perdeu credibilidade (quase toda) nos últimos anos. Como muitos lideres da oposição já disseram, a queda dos social-democratas terá de começar num ponto: o Funchal. É esse o ‘tudo’ deste cerco da Jerusalém.