Há momentos na vida que nos esmagam, que nos mostram a dimensão da nossa pequenez e da nossa fragilidade. São momentos avassaladores, terríveis, indescritíveis, em que cada minuto parece a eternidade e a eternidade o inferno. Espreitam-nos nas esquinas da vida, surpreendem-nos e instalam-se, deixando-nos perplexos, assustados e, sobretudo, indefesos. O mundo desaparece à nossa volta e só ficamos nós na imensidão da nossa dor. Uma dor sem tréguas, profunda, brutal, que fere a alma e deixa um vazio que escapa ao espartilho do verbo. Um vazio que se não deixa dizer porque é simplesmente indizível e, por isso, nos transforma em mártires incompreendidos, heróis solitários em demanda de uma luz ao fundo do túnel que faça emergir a esperança do escuro povoado de desilusão total. E esses momentos chegam a todos nas mais variadas formas. Não poupam ninguém. O carrasco de hoje é a vítima de amanhã. O devir da vida encarrega-se de repor a ordem, o equilíbrio, ou, nas sábias palavras do meu saudoso avô, mostra-nos que a vida é a tal rodinha que nos troca as voltas, devolvendo-nos o que merecemos. Seja bom, seja mau. E é aí, quando chega a nossa vez de mergulharmos nas profundezas de nós próprios, que sentimos uma saudade infinita do futuro, uma saudade infinita do passado, uma saudade infinita da rotina dos dias sem sobressaltos de que tanto nos queixamos por serem sempre tão iguais e tão desprovidos de paixão, graça e novidade. Lembrei-me disso há poucos dias, se calhar porque estou num momento desses; se calhar porque, desde a janela do meu trabalho, ouvi o assobio daquele homenzinho que, paulatinamente, quase todos os dias sobe e desce a Rua das Hortas e atravessa a Rua do Carmo sem destino aparente. O silvo melodioso subiu até ao meu andar, invadiu o espaço, evocando os versos do poeta: leve, breve, suave,/um canto de ave/sobe no ar com que principia/o dia. Escutei-o, mas não parou. Pelo contrário, continuou mais leve, mais breve, mais suave do que nunca, trazendo-me de volta a rara beleza das pequenas coisas da vida. Não resisti. Desci à pressa e fui ao encontro desse assobio que, por instantes, me libertou da minha tristeza, relativizando-a. E lá estava ele, o homem do assobio. Até então nunca reparara nele. Dia após dia, ouvira-o apenas. Ouvira o seu sopro afinado encher as ruas, misturando-se com o bulício da cidade, arrancando risos e fracas imitações a fôlegos mal treinados. Naquele momento, no entanto, o assobio ganhou uma forma, um significado, um protagonista. Ali, diante dos meus olhos, alheio a tudo em seu redor. Um homem simples, entregue à fruição de uma partitura perfeita e harmoniosa como se dela dependesse a sua própria vida. Olhou para mim, olhei para ele e, qual maestro, mão direita a marcar o compasso, a esquerda a ditar o sentimento, tocou para mim durante minutos. Não sei se foi do dia, se do meu estado de espírito, mas naquele momento eu fui a sua plateia e ele o meu consolo. Ficamos assim, indiferentes aos outros. Só ele e eu, só eu e ele. Ninguém mais. E naquele momento a transcendência da música, a sua inefabilidade, tocou-me. Fez-me feliz porque me devolveu, mesmo que por poucos minutos, a paz que procurava. E ele, o homem do assobio, soube-o quando lhe disse obrigada. Obrigada por me ter lembrado que, mais cedo ou mais tarde, a vida voltará a ser, tal como o canto de uma ave, leve, breve, suave...

Eker Sommer