No paço real, em França, no séc. XVII, o médico apenas recebia salário enquanto todos os membros da corte estavam de saúde. Se alguém adoecesse, o salário do médico era suspenso. Sempre que isto acontecia, o médico apressava a recuperar a saúde do doente. Esta sátira é descrita no livro Arte de Furtar, de autor anónimo do séc. XVII. Nesse texto os portugueses são criticados, porque estes pagam aos médicos apenas quando estão doentes. Pior ainda, pagam mais ao médico quando estão mais doentes. Deste modo, corremos o risco dos médicos se interessarem mais na doença, do que na saúde. O autor do livro sugere, por isso, que os médicos devem ganhar mais quando protegem a saúde e nas curas rápidas, e não quando estamos doentes. Este é, afinal, o princípio da moderna medicina preventiva: a função do médico não é apenas curar doenças, mas, principalmente, evitar que estas aconteçam. Espinho do nobre Para salientar a importância deste princípio (ganhar pela saúde, e não pela doença), o autor do livro conta que um nobre rico chamou o médico para tratar uma inflamação na pele. O médico verificou que o mal estava a ser provocado por um espinho. No entanto, fez o curativo para a inflamação, mas não retirou o espinho. Decorridos alguns dias, o médico foi chamado para novo curativo. E assim aconteceu durante muitas semanas: o médico fazia cura para a inflamação, mas nunca arrancava o espinho. Sopa de espinho Um dia, o médico teve que se ausentar da terra e foi substituído pelo filho, estagiário nas artes médicas. Este, porém, ao examinar o nobre, retirou logo o espinho e o doente curou-se em pouco tempo. Quando o médico regressou, o filho correu a contar a sua façanha: conseguiu, em poucos dias, o que o pai não conseguira em muitas semanas. O médico não ficou satisfeito e, dirigindo-se ao filho, chamou-o à razão: - Enquanto o doente tinha o espinho, nós tínhamos rendimento garantido. Agora, ele tem o dinheiro e nós temos o espinho. Quando tiveres fome irás comer sopa de espinhos! Espinhos da dívida pública Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia, declarou, recentemente, que "os aumentos dos impostos e os cortes na despesa pública deprimirão ainda mais as economias, agravando o desemprego". No caso de uma economia, como a portuguesa, estes curativos são "auto-derrotistas", disse aquele economista. Os investidores, externos e internos, recebem juros e lucros com a compra da dívida pública portuguesa. Cerca de 60% do IRS é equivalente aos juros a pagar aos credores. Por este motivo, é lógico questionar-se: os curativos à economia, propostos pelos credores, não servem, apenas para atenuar a inflamação? alguém está interessado em arrancar os espinhos que provocam o mal? *Procurador da República no TAF Loulé

João Luís Gonçalves*