O que me fez escrever estas linhas foi uma Conversa Cruzada, A Arte de Lidar com as Mulheres, numa sessão no Teatro Municipal: o editor, João Paulo Cotrim trouxe como oferta à moderadora uma pequena cerâmica das Caldas da Rainha. Esse episódio trouxe-me ao pensamento uma memória de muitos anos atrás, mas que é sintomático da mentalidade da época, da maneira como as mulheres lidavam com estes assuntos. Aconteceu na Lisboa dos anos sessenta, em plena governação salazarista. Foi assim: A minha irmã tinha uma empregada das que trabalhavam a dias e que nessa época se dizia mulher-a-dias e não como hoje, empregada doméstica. Pois essa senhora foi, num domingo de verão, numa excursão às Caldas da Rainha e lembrou-se de trazer como presente para a minha irmã um fradezinho daqueles que ao levantar-lhes a saia, aparece a pilinha, a chamada cerâmica pornográfica das Caldas. Pois a senhora no dia seguinte foi trabalhar para casa da minha irmã e levou o presente. Nessa época era costume as mulheres, não as senhoras, usarem umas alcofas em palha com umas risquinhas muito coloridas, onde transportavam os seus pertences, roupa para o trabalho e outras coisas. A senhora lá colocou o seu presente muito bem acomodado, embrulhadinho numa peça de roupa para não se partir e chegou a casa da minha irmã muito nervosa. Confessou que a aflição dela era que, se lhe acontecesse alguma coisa pelo caminho, ou no autocarro, por exemplo, podia ser atropelada, ou cair e magoar-se e ir bater ao hospital, seria revistada e encontrariam o boneco. Que vergonha! - Ai minha senhora, eu nem quero pensar! Dizia ela, toda atrapalhada. Ser apanhada com aquilo… [email protected]

Ângela Costa - Cooperante da "Espaço às Àrtes - Cultura Ponto Zero"