S. M. Quantos de vós, distraídos como eu ainda não tinham reparado na existência de denominações toponímicas evocativas de personalidades do passado, nomeadamente do tempo da "Velha Senhora" no nosso arquipélago? Não que seja contra tais existências, até porque concordo que, mesmo nesse tempo e nessas circunstâncias existiram pessoas capazes, personalidades meritórias e dignas. Mas, não é o caso dos que encontrei. Esta ilha que já não é adjacente há muito tempo e que, não obstante o momento por que passa mantém o orgulho que plasma no seu hino regional, mantém, que seja do meu conhecimento, que é parco nesse particular, duas ruas que evocam o nome de duas personalidades que participaram nos tempos mais trágicos e desgraçados desta ilha, ou melhor, deste arquipélago. São elas: Rua Dr Oliveira Salazar, na Ponta do Sol (pasme-se!!!). Descobri por acaso, após décadas de existência e sendo, nascida, criada e desempenhando diariamente, por lá, a minha profissão, que a Vila da Ponta do Sol dignifica essa ilustre criatura que tantos benefícios nos logrou durante o antigo regime. Dr Oliveira Salazar, nome da rua onde se situa, por exemplo a sede da Fundação João Pereira, esse ilustre dirigente nacional, que entre tudo o que nem vale a pena referir por ser de sobejo conhecimento histórico, reprimiu com violência policial e militar, por exemplo, os participantes da Revolta do Leite, na década de 30 (1936), chegando mesmo a enviar vasos de Guerra para controlar tão selvagens criaturas: os produtores de Leite. Prendendo em condições de humilhação crianças. Reprimindo até a morte a indignação daqueles que pretendiam apenas assegurar a sua sobrevivência, ameaçada pela criação de monopólios nesse sector, que dizimariam os pequenos produtores. Pois é... Lembraram-se de alterar o nome da ponte sobre o Tejo, mas esqueceram-se duma rua pequenina perdida num lugarejo no meio do mar. Na mesma sequência, a da Revolta do Leite, eis que surge, numa das artérias mais concorridas da Ilha do Porto Santo o nome de Goulart de Medeiros, tão só o Governador Civil deste Arquipélago aquando da dita Revolta. O responsável pelo envio das forças policiais e militares que agrediram, alguns até a morte, prenderam e exilaram centenas de madeirenses em flagrante e indefesa inferioridade: Para quem não sabe, só na Ribeira Brava, concelho há altura recém criado, morreram dez pessoas às ordens dos dois senhores supra referidos. Bem hajam.