O Mundo não pára de nos surpreender. Sim, às vezes também pela positiva, mas o movimento mais comum é aquele que nos deixa desamparados, presos a uma velocidade que não é a do nosso coração. Andamos a descompasso na grande maioria das horas. Feridos de uma realidade que nos assalta e abala os dias.
A violência pode ter vários graus, mas é sempre violenta, sempre a cumprir esse estado que lhe dá o nome e o sentido.
A violência pode surgir de dentro da pele, de algo que trazemos guardado, quase esquecido, quase nosso e familiar. Até ao dia em que nos surpreende dentro da casa, por dentro do que somos. É uma violência antiga, primordial, sanguínea.
Depois, há a violência da terra, aquela que se desenha onde não a conseguimos domesticar. A que derruba a ilusão de que a nossa construção é suficientemente forte para deter os elementos e os seus estados de solidez e de humor. Sim, porque a geografia também sente e tem a capacidade da revolta.
Contudo, a mais violenta das violências é aquela que nasce da condição do que pensa e age. Da condição de ser carne, de ter braços e cabeça e coração capaz de se corromper, de se avariar como uma máquina. É numa máquina avariada que penso quando assisto, quase em directo, aos atentados de Boston, quando leio, em deferido no tempo, mas em directo no coração, sobre a morte na linha da meta, sobre os nomes, as histórias, a vida que se esvai no quotidiano que deveria ser seguro.
O terror é uma avaria, a violência é um mecanismo em que deixou de funcionar a humanidade e juntos constroem a loucura no seu estado mais bruto.
O terror instala a insegurança de estarmos aqui, torna volátil o chão que pisamos, a certeza de que é possível a normalidade dos dias, as metas e as corridas, o abraço de Martin ao pai.
Mas há algo que o terror e a violência nunca vão conseguir: não vão conseguir ser a normalidade. Por muito quotidiano que assalte, nunca será normal morrer aos oito anos na linha da meta. Não há metas com este sentido.