No dia em que respirei mundo não te sabia. Eras antiga e tão nova em mim. Eu não me sabia. Tu aprendias-me a cada gesto demorado dos teus setenta e cinco e tão poucos anos mais. Os passos iniciais da minha vida foram o tempo de te conhecer: as primeiras ruas percorremo-las devagar. Cada instante a teu lado era para mim caminho seguro: o teu andar a medida justa para se me revelar cada travessa, uma calçada, aquele largo, o mundo à escala do assombro de pés e de palavras desconcertados. Em ti o mundo era chão certo. Sentámo-nos (tantas e tão poucas vezes) sossegadas e em silêncio na pastelaria. Pedias café de saco e um croquete e para mim leite quente numa chávena igual à tua. Éramos pares, frente a frente na mesa de fórmica castanha impecavelmente limpa. Eu erguia-me direita no encosto da cadeira a aprender a ser crescida contigo, para ti. Lias o Diário de Lisboa, escolhias para mim um suplemento do jornal. Eu não sabia ler, acompanhava o compasso dos teus dedos, tão leves, folha a folha. Nos cotovelos, nos pulsos, nos dedos ficavam impressas letras que eu não conhecia. As palavras - fragmentos de dias que sabias fugazes - habitavam-me, 'off-set'. A notícia, da primeira à última página, não era a que se revelava a tinta de água, não era a novidade cansada dos tumultuados anos setenta, fora do lugar em folhas prometidas ao esquecimento. O acontecimento era aquela muda impressão, inscrita na pele, da tua presença firme, memória futura. No regresso a casa acompanhava-nos o que haveria de ser o almoço por fazer (pensado por ti, surpresa para mim): um saco nas tuas mãos elegantes, a acompanhar o teu porte (que então me parecia alto, aprumado); outro nas minhas a pedir melhor equilíbrio. Sentadas no longo do banco de madeira da cozinha, a cada par de mãos a sua tarefa: sobre os veios da mesa eu aprendia o corte lento, trémulo, do feijão verde. Sentia o teu atento olhar em mim - a faca perigo, intuo que temias e silenciavas - e cenouras a dançar suavemente entre os teus dedos. O fio verde, a pele cor de laranja, ambos quase transparentes, a espiral da cebola, as pevides da abóbora em delicados montes que eu tentava ocuparem, ordenados, os nós escuros da madeira nua. Por um momento o meu olhar ausentava-se das mãos, da mesa, do almoço: era quase um quadro - Arcimboldo doméstico antes de se tornar sopa. O azul água dos teus olhos a tocar os meus por um breve instante - nenhuma palavra - e o regresso a ti, a nós, sereno. Catraias, quase sorríamos. Usavas um relógio muito pequenino, de corda diária, como se não houvesse medida por fora de todas as manhãs, tardes, histórias que de ti, de outro e do tempo que foi nosso, da tua e da vida que vivemos, me contavas. Demorávamos à mesa, antes, durante, depois do almoço. A intimidade era para mim assim, contigo. Não porque a mesa era redonda (sinto) o meu mundo nasceu ali. Houve a escola a sério, de bibe aos quadrados e elástico nos pulsos que me apertava as mãos e encolhia o tempo de ti em mim. Eu recolhia folhas da árvore de borracha do Jardim do Príncipe Real ou da amoreira da Rua do Jasmim para ti. Tu abrias um livro e os veios das folhas eram então par das linhas que lias. Houve as tuas férias na Assafora - hoje tão perto, então demasiado longe: quase um dia inteiro no Diane bege e tamanha demora para te encontrar, a sorrir, leve e terna, guardada pela sombra entre ténues raios de sol, entre árvores, folhas e flores silvestres que acolhias. Houve as férias muito grandes no Minho - os caminhos, o rio e as amoras que com os irmãos regressavam a casa, a nossa casa, para se fazerem compota para os dias frios. Há um postal (encontrei-o há pouco) com o carimbo ainda claro: Santa Justa - Lisboa, 17.9.1979. Eu tinha sete incertos anos, perdida entre casas. Tu tinhas a sabedoria de me saber perdida. Encontraste-me com estas palavras: "Querida Diana. Como já lês, percebes. Daqui te envio um beijinho cheio de saudades. Qualquer dia temos a Diana novamente a caminho da escola toda contente. Até lá, um grande abraço da Bis." Cheguei tarde ao teu nome: Sofia. Em casa eras Bis para os bisnetos, Naná para a mãe. A cidade cresceu, um e outro bairro e eu cada vez mais longe de casa, de ti. Houve o liceu, o latim, a filosofia e Pessoa - e a Rua do Mundo, hoje da Misericórdia, ensinaste-me tu (e como hoje me parece ter todo o sentido o tempo e a toponímia mudados). Houve a faculdade, o galaico-português, gregos e romanos - que tu tão bem sabias, de cor (e eu muda contigo tentei aprender). E a pintura, Belas Artes que o bisavô estudou pelos anos vinte, creio (lembro a fotografia encoberta pelo tempo, pelo luto precoce: cavaletes altos, homens em aprumo, de fato completo e laço, o passado sem corpo presente). As minhas pernas cresceram, os teus passos foram-se tornando meninos. Cada regresso a casa - a ti - foi tomando demasiado tempo, dias adiados. Houve uma e outra noite em branco: a vertigem de um desmaio, o teu corpo sem ar a dissolver-se numa parede. Tentei segurar-te, quase não tinhas peso. Houve o susto suspenso na eternidade de um minuto: uma golfada de sangue pelo nariz, pela boca, a tua fronte a esvaziar-se de vida. Houve dias de silêncio, não o da tua voz, agora, o do teu corpo, o da casa sem ti. A ti tantas vezes te tinha tocado a morte dos teus: a cada partida dedicaste quietude, emudecimento. O piano da sala estava há muito por abrir, o metrónomo imóvel. Era madrugada e promessa de primavera. Acendi um cigarro que não me aqueceu. Era quase sábado, vinte de março. Estavas sossegada, tinha-me parecido há pouco (como nas anteriores noites de vigília). Eu tinha vinte anos, sabia ler mas não percebia: sentia o pulsar da morte por dentro das tuas veias, a respiração sem compasso. Às primeiras horas da manhã, a uma luz que ainda hoje me parece indefinida, toquei na tua mão - que pressenti fria. Dei um beijo na tua testa. Senti (creio, mas não sei) um leve sopro - ainda quente - a escapar dos teus lábios. O quarto congelou. Morreste de tempo. Há um livro que de ti guardo. Em caligrafia antiga, firme, assinaste: 'Sophia', 6-1-918. É a História da Civilização Antiga. À mão, no verso da página de rosto escreveste: 'Ego dormio et cor meum vigilat'. Este é o Cântico dos Cânticos do tanto (e tão pouco) que de ti me contaste. Da última vez que vi o teu corpo estava coberto por cal viva. O imenso pó branco toldou-me o olhar. Ainda não percebia. Foi há vinte anos, tenho hoje quarenta. Sinto-te pulsar nas minhas veias. Sei - como escreveste no livro que agora toco - que dormes e o teu coração vela. Uma nuvem, Bis. Até lá.

Diana Pimentel