É compreensível alguma resistência à mudança. A qualquer mudança. Mas, na Madeira, esse fenómeno ganha uma maior dimensão. A resistência é tão acentuada que chega a ser assustadora. É mesmo uma força de bloqueio que acompanha esta sociedade nos últimos 40 anos. Aqui ou ali houve algumas tímidas tentativas de soltar amarras, mas, aos poucos, o barco sucumbiu às ondas do poder maior. O curioso é que mesmo neste marasmo não só aconteceram mudanças radicais, como algumas até deram certo. A diferença é que o processo foi facilitado pela mão invisível do poder que, nesta terra, tudo ampara, tudo acompanha, tudo encaminha. No entanto, o resultado é o mesmo e fica provado que a mudança não é necessariamente um mal que tem de ser evitado a todo o custo. Veja-se, como exemplo, o caso do presidente da Câmara da Ponta do Sol. Em 2005, Rui Marques era um jovem de 28 anos, um completo desconhecido no mundo da política regional e até local. Oito anos depois, o autarca do PSD tem trabalho feito. Não só conseguiu o milagre de ganhar uma Câmara que o partido dava como perdida, devido ao mandato de António Lobo, como ainda consolidou os resultados eleitorais no concelho e esmagou a oposição. Mais importante do que isso, pagou contas antigas, parece ter organizado a casa e tem novos projectos. Por outras palavras: a mudança resultou e a resistência deu lugar à aceitação. Mas quem estava atento em 2005, não pode deixar de recordar a azia que essa estratégia causou e que só aconteceu porque o partido do poder a isso foi obrigado. Há vários outros casos em que a mudança aconteceu e não veio mal ao mundo. Nem todas as alterações foram um sucesso, é certo, mas o importante é não perder de vista o valor da alternância. A necessidade de mudar rotinas e comportamentos e, sobretudo, de acabar com velhos hábitos pouco saudáveis que se agarram como lapas ao poder. A qualquer poder. Claro que numa região onde quem manda são quase sempre os mesmos ao longo de 40 anos, os mais cómodos sentem resistência à mudança. Embora natural, esse fenómeno não deixa de ser curioso uma vez que muitos dos que se eternizaram no poder são exactamente os mesmos que combatiam o poder eterno de um punhado de outros. Passadas quatro décadas, este modelo dá sinais de clara exaustão. Há rupturas. Há buracos maiores do que os do alcatrão. Há fome. Há desempregados. Há novos emigrantes que saem na idade de regressar. Há graves problemas sociais. Mesmo assim, por aqui, ainda se nota uma enorme resistência a qualquer ímpeto de mudança, por mais necessária que ela se mostre. Dirão alguns que já faltou mais. A esses atrevo-me a dizer que foi o excesso de confiança e optimismo que deitou tudo a perder e matou a alternância. Por isso estranho que em ano de fulcrais eleições autárquicas, o partido do poder, bem ou mal, esteja a trabalhar como se já tivesse perdido todas as câmaras e juntas e quase toda a oposição esteja a agir como se já tivesse ganho tudo. E não é a primeira vez que noto esta apatia, o que revela que a resistência à mudança é transversal. Até a oposição se deixa contagiar.