Fico só nos dias lembrados, quando no ar do dia circulava o vento e o fervido verdete das mitologias. Esqueço o nome, esqueço a minha história. O meu mundo consiste no que não existe, mas em toda a parte o sinto e sei-o verdadeiro. Nunca mais esqueci a grande voz do mar, e eu conheço vozes como a voz da minha mãe ou de quem tanto amo que não posso mencionar. A memória em mim: é memória do mar. Quando me lembro quem fui, oiço o mar marulhar, este mesmo quem sou. Esta inquietação, este eterno começo sem começo, este deixar as coisas, afinal por acabar e há muito não entrar com confiança pelo sono dentro. O mar do Verão, eu tenho-o eterno, até mesmo no Inverno quando terno, lenho, rebenta e cheira dentro da lareira e vagas de calor ondulantes, num plano superior, são mar que sopra o mesmo vento e brilha o mesmo sol e exige até de escravas rituais de príncipes reais, de pescadores fugitivos; um marujo de que fujo. Deuses do nosso mar tão Português, que nos lavam os corpos e nos levam de vez, para um dia ficar num areal com olhos de água e de sal a reflectir o céu e a fazê-lo seu. Homens que soltam os seus gritos e os poderes marítimos. Senhora dos navegantes, deusa dos descrentes, que está, ali, a presidir à beira-mar vidas violentas de desesperados pescadores. Maré vazante: vitória precária e aparente, da terra e sua gente, sobre a pátria permanente, de peixes e corais, conchas e tudo o mais. Manhã, em parte névoa em parte mar. Manhã, agora embora antigamente. Manhã, se tão real talvez inexistente, começada profetizada nos dias lembrados. Mar azul, meu actual paul, catedral de angústia, pequena réstia dessa feliz felicidade. Sei que não há-de haver sem ela o risco de eu a perder, e o grande pinheiro manso onde ainda me condenso, e não esta miséria que é eu ser dia lembrado. Vela latina, viva ao vento do Verão. Pinheiro positivo e uno, oposto aos fáceis fogos vesperais, pinheiro antes de mim tão hirto como um deus, mais fundo e profundo de que um homem medida do mundo. O mar, que como um Deus, exige da vida de homens que lhe ouviram a voz, e a voz foi neles vocação e cedo se iniciaram nos mistérios de um supremo ser, na água, que, é rapidamente lava com as manchas, que, a própria vida tem e muito mais as tem, naturalmente, quem com paixão vive a vida e a vive sem medida e a consente em imolar ao mar, que, há muito insiste chamar. O mar dissimula em sua geografia a sua história, esconde nos acidentes naturais, os seus conflitos c tragédias. Evita obstáculos, varia de atitude, é simples ou solene, acessível ou distante, conforme lhe convêm cm cada circunstância. É humano, é tanto tão pouco como um Homem.
Renata Camacho