ignorante adj. 2 g. s. 2 g. 1. Que ignora. 2. Que não tem instrução. O que não sabe bastante da sua profissão.

(in Priberam)

O Presidente da República está obrigado à reserva. O Presidente da República não deve falar muito aos jornalistas. Um Presidente da República sensato quando tem alguma coisa a dizer ao primeiro-ministro deve fazê-lo em privado.

São ideias como estas, que Cavaco Silva tem defendido ao longos dos seus dois mandatos como Chefe de Estado. Quando questionado pelos seus silêncios, coloca-se na terceira pessoa para falar de si mesmo e profere justificações que bebem nos poderes que a Constituição lhe dá, enquanto Presidente, dando ideia que está num patamar moral superior. E ai de quem questionar. Que não sabe os limites constitucionais à acção da figura máxima no país. Se calhar é ignorante.

O que dirá o Presidente, na primeira ou terceira pessoa, quando analisar o comportamento de Aníbal na feira do livro de Bogotá. Sim, porque quem lá esteve e ignorou o único nobel português na sua intervenção - onde falou dos nomes que através da escrita levaram mais Portugal lá fora - não pode ter sido o Presidente da República, mas o cidadão de Boliqueime rancoroso e mesquinho.

Estou em crer que o Presidente, que tanto sabe de como bem desempenhar as suas funções, que faz livros sobre esta matéria, os Roteiros -que não são bestsellers como os de Saramago, é certo - deve saber o que é sentido de Estado e o que é representar a República além-mar, ou então estamos perante um problema, que é de somenos para o ignorado, mas de toda a importância para o ignorante, que, segundo o dicionário, é aquele que não sabe o bastante da sua profissão.

E Aníbal, o cidadão que não gosta de Saramago e está no seu direito, parece saber pouco do que anda a fazer. Apesar de escrever muito sobre isso e de forma ressabiada. É que não está em causa o homem José Saramago, está em causa o profissional e o seu legado, que também é de todos os portugueses. Foi o primeiro-ministro Cavaco que permitiu a censura ao Evangelho de Saramago, foi o Presidente Silva quem declarou dois dias de luto nacional pela sua morte e depois não compareceu ao funeral e agora terá sido Aníbal que o deixou de fora do seu discurso. Pode haver quem diga que o cidadão, que é Presidente, não é hipócrita, que é um pilar de coerência, nas não é dele que se trata. Mas do representante maior da República, que na primeira ou na terceira pessoa, use-se os recursos estilísticos que se usar, envergonhou o país.

A verdade é que dentro de dias este será mais um episódio que não fica para História, como se calhar não ficará, pelo menos como gostaria, o Cavaco dos Roteiros,dez anos primeiro-ministro, outros tantos Presidente, a não ser numa referência, numa nota, mas os livros de Saramago são eternos e universais.