Um importante gestor de empresas na Venezuela explicava-me, a semana passada em Caracas, que a primeira coisa que os empresários portugueses devem perceber, para serem bem sucedidos em eventuais apostas neste país, é que a Venezuela é dos venezuelanos.

Trata-se de uma constatação simples, mas com um peso extraordinário. Transposta para a política venezuelana, a realidade é a mesma. Ninguém, sobretudo os de fora como eu, terão o direito de incomodar-se com o facto de, em todas as eleições e referendos aqui realizados nos últimos 15 anos, o regime chavista assegurar logo à partida 4 ou 5 milhões de votos como contrapartida do populismo que gerou esta fidelidade cega. Este país, que acolheu e continua a acolher imensas famílias madeirenses com muito carinho e respeito, é dos venezuelanos. E eles não têm nada que justificar-nos o seu voto.

Outra coisa bem diferente são as manobras de bastidores que acabam por desvirtuar aquilo que a maioria dos venezuelanos quer para o seu país. Não é um problema dos chavistas, nem da Venezuela. É um problema de quem se apega ao poder e às benesses que o poder garante a quem o detém e a quem o rodeia. Se estivermos a falar da Venezuela, como é o caso, sim, é justo multiplicar por mil esses vícios do poder...

O que se passou na Eleição Presidencial do último domingo na Venezuela foi uma repetição do que se terá passado em todos os actos eleitorais dos últimos anos: o chavismo acrescentou à sua imensa faixa de fiéis apoiantes todo o abuso do poder que lhe é permitido, por dominar toda a máquina eleitoral. Estou convencido que o chavismo limitou-se a explorar, nalguns casos sem dignidade nenhuma, aquilo que qualquer outro regime faria se estivesse no poder.

A lista de anomalias divulgada pelo candidato Henrique Capriles não é ficção. Todas as situações são reais e qualquer venezuelano sabe que essas irregularidades ultrapassam, concretizadas em votos, a diferença com que o Conselho Nacional Eleitoral se apressou a atribuir a vitória "irreversível" a Nicolás Maduro.

O normal, num país normal, seria que estas distorções fossem investigadas e apuradas. Não aconteceu e dificilmente há-de acontecer, porque o CNE é o governo e o governo é o CNE. Já se passaram 4 dias, os jornalistas estrangeiros preparam-se para regressar aos seus países, os observadores internacionais já se foram, os noticiários fora da Venezuela já abrem com outros factos, a eleição presidencial venezuelana já era. Na Venezuela, o sucessor forçado de Chávez já foi proclamado presidente, amanhã tomará posse com muitos amigos e salamaleques que se servem do petróleo venezuelano. O crime compensa e não é só a Venezuela a comprová-lo.

Uma nota final para a verticalidade de carácter de Henrique Capriles, mesmo que, tarde ou cedo, chegue ao poder e se transforme como todos os outros que se sentam à mesa dos orçamentos públicos. Pelo que se viu, pelo que se sabe da sua imensa fortuna pessoal e familiar, é de louvar que tenha abraçado uma causa como o fez. Correndo perigo de vida, com muito pouco para ganhar. Estou absolutamente convencido que o fez pela Venezuela, que é dos venezuelanos. É bom não esquecermos isso.