Passam 39 anos sobre a Revolução que pôs fim a meio século de ditadura. A instauração da Democracia em 1974 provocou um sentimento comum de profunda esperança numa vida melhor. Foi o fim da absurda guerra nas colónias, o derrube do regime fascista, o direito à livre expressão do pensamento, a valorização do trabalho e da dignidade dos trabalhadores que pautaram a acção política dos primeiros tempos. Por isso, a essa fase devemos o essencial da Democracia: a valorização salarial e o direito à contratação colectiva, uma política fiscal mais justa, o acesso universal à Educação e à Saúde, uma Segurança Social equitativa, a subordinação ao bem comum de sectores estratégicos. Naqueles primeiros anos o país tentou recuperar as muitas décadas de atraso. Mas depressa o poder, na mão dos "partidos do arco da governação", ficou dominado pelos interesses de uma minoria que perverteu o caminho do progresso democrático sujeitando o país às experiências da ideologia neoliberal. Para o jardinismo cá e para os PS-PSD-CDS por lá, a preocupação foi a de, aproveitando a ilusão de bem-estar, ir criando uma sociedade alienada e amedrontada enquanto eles organizavam o assalto ao que é de todos. A eficácia foi enorme: taxas de abstenção eleitoral esmagadoras, desinformação generalizada e a emergência dos mentores do apartidarismo e do voto em branco. Há lá melhor contexto para continuar o saque e continuar a cumprir o objectivo de criar uma ordem social assente sobre a repressão pela miséria e pela ignorância! Não tenhamos ilusões, tudo o que está a acontecer faz parte de um propósito bem definido: produzir em alta escala pobreza e desemprego, promover um clima de insegurança com a destruição da saúde pública e da segurança social e cultivar o individualismo e a lógica do "salve-se quem puder" através da privatização de tudo. Espalhar o medo sob o lema: "Não há alternativa!" Temos ainda a Democracia, por isso, usemos as suas armas pacíficas: a liberdade de pensamento e de expressão, o direito à manifestação e o voto. Mudemos o rumo do abismo e recuperemos os valores de Abril!
Isabel Cardoso - Professora