As prioridades da política regional estão pervertidas a tal ponto que até na agenda parlamentar vigora a lei da despistagem mediática, com o conluio da maioria. Mais uma vez, quando faltam soluções para os problemas de fundo da Região Autónoma falida, de uma governação à deriva e impávida no lento naufrágio das contas públicas, os timoneiros da máquina do governo regional resolvem se armar em patrióticos pensadores do futuro de Portugal, palpitando estratégias para a salvação nacional que não são mais do que manobras de distracção da opinião pública com o intuito de tentar expurgar os seus pecados e de encontrar bodes expiatórios úteis no exterior para lhes arremessar com as culpas de quase 40 anos de governação.

Com água pelo pescoço e de mão à tona segurando o tal pergaminho, qual Lusíadas de Camões, os nossos cancioneiros insulares voltam a fazer tocar aquele disco riscado da revisão constitucional ameaçando fazer emergir o fantasma do separatismo – uma ‘Desertinha’ disfarçada de Adamastor que, segundo Alberto João Jardim, pode levar a que “isto acabe de maneiras que não serão as constitucionalmente previstas”. Em vez de imitar a réplica de Kim-Jong-Un, que tal governar? E esta Assembleia Legislativa da Madeira, já quase quarentona, nem tem maturidade democrática suficiente para se fazer órgão máximo da Autonomia?

A revisão constitucional não enche a barriga ao Povo. A Madeira precisa, como pão para a boca, de medidas atenuadoras do impacto que a crise está a provocar na vulnerável economia insular, nas empresas e nas famílias que pagam mais pela saúde, pela educação, pela justiça, pelo transporte, pela vida, pela água, pelo pão. Não há cura para a saúde na terra onde habita a mais baixa esperança média de vida, não se conhece o fim das filas para consultas hospitalares, nem o tempo de espera para as cirurgias nas várias especialidades nesta terra barrenta onde há 26 mil mortos inscritos nos centros de saúde e apenas metade dos vivos com médico de família.

O Governo Regional está apostado em legislar um regime disciplinar para “acabar com os palhaços pagos pelos poderes da Madeira Velha” mas está sem ideias para fixar os jovens que, feitos palhaços, são forçados a emigrar para fora da Madeira Nova. Está determinado a aumentar para 10 anos os mandatos do Presidente da República, mas não faz ideia do que será o futuro da Madeira dentro de uma década.

Jardim está tão concentrado em transferir os poderes do Representante da República para as assembleias legislativas regionais, em extinguir ERC, CNE, Tribunal Constitucional e todos os outros “trastes velhos do regime” mas não sabe o que fazer com os 25 mil desempregados, transformados em novos trastes pelo seu próprio regime.

Está determinado a proibir a greve na Justiça, na Saúde e nos Transportes em nome desse “acto de patriotismo” enquanto cá, os médicos do hospital do Funchal esvaziam o serviço de urgência por causa das horas extraordinárias. É óbvio que da “supra-santa Lisboa” não virá nem a responsabilidade, nem a resolução para esta política do desvario. Por 36 anos de governação, 6,3 mil milhões de euros de dívidas contraídas, mil facturas escondidas e uma Autonomia penhorada, exige-se muito mais do que um pedido de reforma profunda ao Estado. Por isso, metam a revisão constitucional na gaveta e façam o que tanta falta faz à Política: uma revisão consciencial.