1. Um cliente vai ao balcão de uma operadora de televisão por cabo, preenche os documentos todos, leva o NIB do banco, assina e assinam, escrevem a data, colocam um carimbo e já está: foi autorizado o débito direto. Mentira. Quinze dias depois um teste telefónico para a empresa diz que nada foi feito. "Não foi accionado. Deve ter havido algum problema no sistema. Vamos fazer agora. Digam-me o NIB...confirme o número de cliente, etc.etc". Não digo. Eu já fiz isso tudo. Quero saber porque razão o serviço não foi ativado. "Não lhe sei dizer. O sistema...mas não há problema nenhum. Fazemos agora". Tenho uma palavra em português vernáculo. Mas cada um escolhe a sua. 2. Um cliente de um banco dirige-se a uma caixa multibanco para uma transferência interbancária. O sistema assume o NIB, não aparece o nome do destinatário e surge um aviso. A operação foi concluida mas não é possivel dar o comprovativo. Recorre-se ao banco. O dinheiro foi debitado na conta, entretanto surge como anulado sem estorno e sem garantia que a transferência foi realizada. "Não podemos fazer nada. Espere dois a três dias que o sistema ou vai repor ou transferir. Depois diga-nos alguma coisa". O sistema é um gajo do caraças. 3. Adiante. Este ano, por força de Vitor Gaspar, muitos pensionistas são obrigados pela primeira vez a declarar IRS. Como no ano transacto ninguém os avisou e aquela papelada das idas à consulta e da farmácia não serviam para nada, muitos deles, com idade e idoneidade para mandar dar uma curva a esta gentinha, fizeram lixo do lixo. Mal sabiam que deveriam ter guardado o papelinho do reembolso da entidade bancária que durante longas décadas serviram. Posto isto, vamos ao que interessa. É preciso recuperar esses documentos, portanto, basta pedir uma declaração nos respectivos serviços de saúde para efeitos de IRS. Parece fácil. Mas não é. E porquê? Porque essas consultas reembolsados via bancária, era assim que funcionava para a terceira idade que usufrui de um vale de correio do Centro Nacional de Pensões, não entraram na rede de pagamentos do edificio da Rua das Pretas (lei-se IASAUDE). Ali, só entram os pagamentos em balcão realizados em 2012. Eu tinha mais uma palavra em português vernáculo mas vou saltar essa parte. Afinal, o raio do sistema, que nunca me foi apresentado, é o responsável. Solução: fazer um requerimento. 4. Mas nesta coisa de terceira idade, a história ainda é mais ridícula. No início do ano, são todos obrigados a fazer 'prova de vida' na Rua das Pretas mas se pensam que é suficiente, enganam-se. Na Rua das Pretas a prova de vida só serve para as consultas. Para os medicamentos é preciso ir ao SESARAM, ou seja, recorrer ao centro de saúde da área de residência, provar que se está, novamente, vivo e obter uma declaração com validade por um ano e que substitui na farmácia o cartão de utente. Baralhado? Não vale a pena. Parece que eles não se falam entre si, só pode. Portanto, a rede não funciona. Há outras redes que funcionam, e bem, mas esta que é necessária a centenas de pessoas, algumas delas acamadadas ou dependentes de familiares ou de instituições, não está feita para eles. O sistema é um incompetente. Um arrogante. Que vai morrer velho e sem memória. E não se mostra. É assim um fantasma que nos bate na cara sem o vermos com o qual temos de lutar sem saber onde enfiar a espada. O "sistema" é uma Hidra de Lerna - um monstro mitológico que quando lhe cortavam uma cabeça nasciam duas no seu lugar. 5. Finalmente, o sistema politico, ou seja, o conjunto de instituições políticas por meio das quais um Estado ou uma Região Autónoma se organizam. Organizam? Mas como se organizam se não há integração (quando se fala em sinergias fala-se em sistemas, que eu saiba). nem há responsáveis por nada? Lília Bernardes, jornalista do DN nacional, na Madeira
Lília Bernardes