Um dia destes, a propósito da eleição do Papa Francisco, ouvi a senhora Maria utilizar expressão "o olho do pastor engorda o gado", coisa que já não ouvia há muito tempo. Estava a senhora a tentar explicar à sua neta Cristina a sua simpatia pelo novo Papa e as mudanças positivas quepodia trazer para igreja e para mundo. A neta, uma jovem com cerca de vinte anos, por sinal muito perspicaz, tentava puxar a terreiro à avó apresentando argumentos de forma a perceber a que é que realmente a avó se referia. Ao que ela responde, com ar de que é uma coisa evidente: - Ó minha filha! Não estas a ver?! Só a maneira de ele olhar para as pessoas já da vontade de ouvir. É mais popular. É como o pastor, não basta deitar erva ao gado, é preciso olhar por ele, ver está embaraçado, falar com eles e de maneira a que os bichos entendam. Entretanto alguém entra na conversa e pergunta: - Então vamos ter mais gente na missa? Se engorda o gado também engorda o rebanho! E a septuagenária, com ar de professora diplomada pela experiência que a vida lhe deu, responde com a convicção de quem sabe do que fala: - Então vocês não sabem que é assim, em todo lado, é na igreja, nos governos, nas fábricas, nos hotéis, nas câmaras, em tudo. Não estão a ver o que se está a passar com a mudança do senhor padre na nossa paróquia? O outro era bom, mas este olha o rebanho doutra maneira e as missas já têm mais gente. E com os governos e as câmaras não se passa o mesmo? - pergunta com alguma indignação. - Andam sempre a pedir mais e mais à gente (rebanho) e não são capazes de olhar pelas pessoas. Por isso é que dizem que isto está tudo mal, não olharam direito para o gado e agora só sabem dizer que a juventude como tu (olhando para a neta) está à rasca. A rapariga entusiasmada com a explicação da avó fez questão interromper e esclarecer que pertencia a uma geração mais nova e que, mesmo quando está à rasca, tenta sempre desenrascar-se daquela que julga ser a melhor forma e evitando depender de terceiros, como avó lhe tinha ensinado. Ao mesmo tempo, dava-lhe razão relativamente aos pastores deste país que há muito que não tem olho para o seu gado (povo). "Agora percebo porque é que andamos sempre à rasca e está tudo cada vez mais magro e raquítico". E rematou dizendo: "mas eu não desisto".
Joel Freitas, Empresário