Escrevo no meu dia de anos. Para celebrar, faço de conta que no meu país não há um primeiro-ministro em choque com a lei fundamental, que usa as decisões do Tribunal Constitucional como desculpa para fazer o que tanto anseia e para o qual não foi eleito: destruir o Estado social. Escrevo no meu dia de anos, sentada no lugar 56 da carruagem 23 do Intercidades. Para celebrar, faço de conta que no meu país há um primeiro-ministro que tem noção de que a chamada crise da dívida soberana é filha da crise bancária e não hesita em pôr os cidadãos acima dos credores. Até um nabo (ou uma nabiça) em economia percebe que estas doses cavalares de austeridade não estão a funcionar. O Produto Interno Bruto caiu a pique. A dívida não pára de subir. O ano terminará com um défice muito acima do previsto. E, não, a culpa não é do Tribunal Constitucional. Cortaram salários, prestações sociais, serviços públicos. Taxaram tudo, tudo. E, como seria de esperar, à quebra brutal do gasto público, seguiu-se a redução do consumo dos particulares e das empresas, a menor receita fiscal. E, à menor receita fiscal, já se sabe, nova quebra do gasto público… Escrevo no meu dia de anos. Para celebrar, faço de conta que no meu país não há um primeiro-ministro que acha que, para restaurar a competitividade, sulcar as águas do crescimento, temos de voltar aos níveis salariais e à protecção social que existiam quando eu nasci. Escrevo no meu dia de anos, nas mais de três horas de viagem entre o Porto e Lisboa. Para celebrar, faço de conta que no meu país há um primeiro-ministro que gosta de ver na Constituição o princípio da dignidade humana a ditar protecção social, a saúde tendencialmente gratuita, a educação também. Amanhã, quando já não puder fazer de conta, talvez só uma coisa me dê força: pensar que vivo num Estado de direito, que o Tribunal Constitucional ainda funciona como entrave à arbitrariedade.

Ana Cristina