É impossível num hipotético campo da moderna arqueologia do comportamento conservador (avesso a reformas e ao crescimento de cogumelos espontâneos) separar mentalmente o sucesso do insucesso, a verdade da inverdade, a não ser que venha à memória de grilo deitar fogo à terra já queimada. No sempre demorado processo da cura incompleta da despersonalização, aconselha-se vivamente a psicanálise existencial de Sartre ou a acupunctura como anestesia e nunca as barbas de molho. A corrupção dá ares superiores de perversão, sedução e suborno; dá-se bem, dando bem nas vistas, nos corredores macios de veludo; arquiteta a sua própria necessidade que não pára de inchar. A imagem da corrupção é a encenação barroca do seu triste espetáculo vazio, no teatro bizarro das sombras esguias. Cultive-se o célebre adágio de Aristóteles e dos escolásticos - «a geração de uma coisa é a corrupção de outra». A corrupção, omnipresente, senhora de si e do seu nariz adunco, da sua malha e das suas cavidades, serve-se à vontade, sem etiqueta, da autoridade do futebol para intrujar o mundo e os submundos. O insuspeito senhor X de colarinhos brancos denota passageiramente «um estado desordenado e patológico da consciência» quando se perde fatalmente entre os encantos políticos do futebol e os juros futebolísticos da política. A corrupção à letra, enquanto estranho exercício de sedução, representa «um fenómeno de involução». Filosoficamente, explica-se pela «alteração do estado físico ou moral». À cabeceira (pela linha de cabeceira do relvado onde corre, dorida, a bola irreverente e feiticeira), faço de conta que nunca li André Malraux, mas persegue-me o eco das palavras e dos silêncios - «a nossa civilização vive no sensacional tal como a civilização grega viveu na mitologia».

Juvenal Xavier, Jornalista