Usando uma expressão anglo-saxónica, muito em comum, o que se passa com o tipo de governação na República, nestes últimos anos, é que estamos envolvidos numa noite de amadores, com tudo o que de paradoxal nos possa acontecer, como país, por esta estranha circunstância. O que temos assistido nestas últimas semanas é a prova evidente, já aqui anunciada, do vazio político de Pedro Passos Coelho, a sua falta de preparação para governar e a sua incompetência política para alterar o rumo e mudar de políticas. No momento em que vivemos, as crises só deram aso a novas crises prolongadas por um tempo indefinido. Infelizmente tudo indica que estamos numa situação dessas. A gestão orçamental, a crise económica e o impasse europeu pediam uma enorme responsabilidade de todos os partidos. Não sabemos o que nos espera politicamente. Mas sabemos que sem um entendimento em questões fundamentais, não ficaremos melhor. Os próximos tempos alertam-nos para novas agruras, dificuldade em ler o passado recente e em reinventar alternativas para o futuro. O fracasso das metas orçamentais, a gravíssima recessão, o desemprego e, principalmente, a desesperança que se instalou no país justificam políticas mais ousadas. Nesta longa noite de amadores a que temos assistido, os seus participantes activos dão mostras de uma profunda incultura política, económica, jurídica e histórica. O Primeiro-ministro, que conheço bem, mostra-se o governante mais mal preparado desde a implementação do regime democrático. Tal já seria de adivinhar tendo presente a sua juventude, a sua formação académica e o seu curriculum profissional. Não podemos esquecer que mais do que uma questão de pertinência das instituições ou de adesão aos valores, a democracia é primeiramente uma questão de competências práticas, especialmente no domínio da palavra e das relações com os outros. O que aconteceu esta semana com a deplorável declaração do Primeiro-ministro, a propósito do Acordão do Tribunal Constitucional, é a negação de tudo isto. Uma falta de respeito pelos órgãos de soberania e pelos valores democráticos. A meu ver, não estamos ainda perante a morte da política mas no meio de uma transformação que nos obriga a concebe-la e a praticá-la de outra maneira. Apesar de nunca ter estado tão limitada na sua margem de actuação, a política nunca foi tão decisiva como hoje. A política tem de entender a sua relação com a sociedade como relação de aprendizagem e não de ensino. A política serve para que a sociedade reflita sobre si própria como totalidade e aprenda a gerir o seu futuro colectivo. A esperança - esse sentimento ou afecto humano que regula a nossa relação com o futuro - não é uma ilusão consoladora nem uma pertinaz resistência à aprendizagem proveniente da decepção bem aproveitada. A esperança racional distingue-se do optimismo brando que alimenta a ilusão na mesma medida em que se fechar ao conhecimento da realidade. Os esperançados estão sempre preparados para o pior. A sua confiança na vida não teria muito valor se não tivessem sobrevivido a decepções do passado, do mesmo modo que o conhecimento de que o futuro trará novas decepções demonstra a contínua necessidade da esperança. A falta de previsão, a fé cega em que as coisas acabarão sempre bem, é um pobre substituto da disposição para enfrentar as coisas precisamente quando não correm bem. Como disse Edgar Morin: "O abandono de uma grande ilusão pode dar lugar ao nascimento de um grande projecto." Acredito piamente nesta ideia quando esta longa noite de amadores nos transporta, dia após dia, para a tragédia da história onde hipotecamos socialmente o tempo futuro e exercemos sobre as gerações vindouras uma verdadeira expropriação temporal. Transformámos o futuro numa lixeira do presente, na dureza desta realidade. Nada mais e nada menos.
Roque Martins