Éramos jovens!
Gostávamos acima de tudo de coisa simples. Éramos cerca de trinta rapazes e raparigas. Algumas coisas começavam em nós talvez o dia, talvez a vida, talvez desajeitados gestos de paz. Tínhamos ouvido vagamente falar da noite onde um dia, diziam, se dissolveriam as linhas limites dos nossos vultos. Não havia muitas palavras nas nossas bocas, mas, no entanto amávamos o mar, a lisa e leve superfície do silêncio, a simplicidade das mãos, certos corpos verdes e tensos onde, às vezes, pensamos que se situa a nascente da luz, a música , o brilho supreendente nuns olhos - coisas acerca das quais alguém a nosso lado falava, talvez, de beleza. Sabíamos muitíssimo pouco, é muito difícil saber tão pouco sobre mas víamos às vezes nuvens sobre a cabeça de algumas pessoas; havia momentos em que nós próprios sentíamos o peso de certas palavras, mas éramos jovens acima de tudo éramos jovialmente jovens, depressa secava o sangue porventura chamado à periferia da nossa pele, e, seguíamos porque se é certo que quase nada sabíamos, no fundo, duvidávamos de que fossem verdadeiras palavras, seriam possivelmente pedras conglomeradas de sons onde o tempo teria cristalizado, coisas cobertas das vestes sombrias do medo, tortuosas e tão complicadas como ideias. Nossa era a orquestra dos sonoros e suavíssimos instrumentos das manhãs abertas como corolas no espaço alegre das nossas frontes. Nossa era a convivência contente das flores bravias num momento despertas no descampado vasto dos nossos passos. Habitávamos todos no princípio de tudo onde todas as coisas se nimbam de novidade e são naturais e não têm que pedir desculpa por um dia sobressair acima da terra e ocupar certo espaço e estar representadas, talvez, por um nome nas relações entre os homens. Opúnhamos ao tempo o peito e o vento vivia na vizinhança dos nossos gestos. Não havia um passado muito para além do discreto relevo dos nossos ombros. Dispúnhamos de um património facilmente inventariável de ideias e repousávamos sobre a frágil certeza de que estávamos vivos e éramos jovens e desenhávamos passos inaugurais no princípio do mundo e até o mar devia saber alguma coisa de nós, porque o mar parece também ser jovem e começar cada dia a sua vida supreendente. Éramos cerca de trinta. Havia trinta perfis na madrugada do mundo. Bastava multiplicar por trinta e era assim fácil chegar até nós e depois era tudo tão simples como principiar. O espaço da nossa amizade dava para as amplas areias desertas, mas era junto do mar que nos sentíamos tão à vontade como o vento : lá onde a harmonia e a música jamais podem perturbar a nossa harmonia familiar ou infringir o último parágrafo das leis da cidade interpretadas no mais estrito sentido.
E éramos alegres, amigos e jovens ! Não teríamos mais que a nossa alegria, a nossa amizade, a nossa juventude.
E éramos, assim: como quem é rico ou dispõe do bastão nodoso da autoridade ou tem a erudição inerente a quem esteve presente à inauguração de muitas manhãs. Nesse dia conversávamos, dançávamos e tomávamos coca-cola e cerveja. Conversar, dançar, beber coca-cola e cerveja era essa noite a maneira de sermos alegres, amigos e jovens. Era sermos do tamanho desses momentos em que o tempo roda e parece quase parar. A sombra desceu sobre as salas e a nossa amizade era branca como a manhã. Estávamos de pé, caminhávamos : havia na noite o mar. O mar não era agente da ordem, senhora solteira e sózinha, gente bem pensante, não tinha boas maneiras, é sempre um grande desajeitado. O mar surgiu na noite, na nossa amizade, chegou até nós na elevada estatura daquela onda e levou seis de nós. E éramos cerca de trinta jovens alegres, um abraço entre nós tinha um tamanho maior que uma sala, maior que uma rua e agora o tamanho de um abraço entre nós é bastante menor…talvez possa caber numa rua qualquer da cidade, num parágrafo, em corpo seis de alguma lei, num artigo do estatuto dos bombeiros voluntários de qualquer vila, na vida pequena de gente bem pensante onde haverá a família, a farda, o Domingo, onde sobressai a grande aventura do beijo na face rechonchuda e corada da continência rasgada do rito escrupulosamente catalogado e previsto, antes orçamentado e autorizado já através de diversos despachos.
Éramos cerca de trinta pois com cerca de trinta, não contávamos era com a expansiva talvez indiscreta amizade do mar.
Renata Camacho