Lá vem ele outra vez contra o Alberto João, dirão alguns Leitores mais conformados. Tenho de reconhecer que têm razão. Perdoem-me a insistência mas acho que neste espaço de opinião tenho o dever de ajudar aqueles que não querem - e os que fingem não ver - a trapaça que aqui vai. E a trapaça mais recente, que deve ser denunciada, tem que ver com esta brincadeira das viagens para cá e para lá que o presidente vem fazendo. Antes de mais, porém, devo esclarecer uma coisa: nada me move contra o estilo de vida escolhido e seguido pelo presidente. É lá com ele e não tenho qualquer direito de entrar nesse campo. Mas quando esse modelo de vida interfere com aquilo que acho que deve ser a obrigação mínima de um responsável político, seja ele qual for, a coisa muda de figura. Creio estar perante um caso desses. Admito estar errado se alguém me provar o contrário, mas o que se tem passado com as viagens do presidente é um escândalo. É gozar com a nossa cara. É desbaratar recursos. É uma falta de respeito e um completo alheamento da realidade. Em bom rigor, e para usar uma expressão que muito aprecia o presidente, quem assim se comporta está-se nas tintas para quem o elegeu. Melhor ainda, está-se “bora-borando”, para usar uma sua rica expressão quando estava no paraíso de Bora Bora, há uma boa dezena de anos, e a Madeira política estava a arder. Hoje os tempos são outros. As cinzas da Madeira política ainda queimam e trazem chamuscados milhares de madeirenses. A começar pelos mais de 25 mil desempregados, pelos doentes sem medicamentos ou sem cuidados médicos garantidos, pelos pobres que estendem a mão cada vez mais conformados com aquilo que nos vão dando. O presidente de uma Região falida, sob intervenção do Estado, com autonomia completamente hipotecada e sem rumo definido deveria ter um mínimo de pudor e algum respeito. Mas não. Continua a fazer a sua vidinha de lorde como se isto não fosse nada com ele. Vai a Bruxelas e a Estrasburgo mais vezes do que passa por alguns locais desta Região. Vai quase em segredo, divulga a agenda, completamente vazia de interesse para nós, quando já lá está e chega a mandar palpites sobre o estado do país, a oposição e os resultados dos jogos de futebol da jornada anterior. Isto sempre com o maior desplante do mundo. Como ontem foi tornado público no DIÁRIO, nestes pouco mais de quatro meses deste ano, Jardim esteve mais de um mês sem ir à Quinta Vigia. Mais de um mês de férias em pouco mais de quatro meses de serviço. Se a média se mantiver, ao fim do ano será quase meio ano fora, incluindo o real tempo de férias. Quem assim procede não é um governante. Não é um presidente. Não é claramente um estadista. É um caixeiro-viajante que vai uma semana por mês lá fora buscar banha da cobra que alguns compram caro e outros a pataco. No resto do mês, e no resto dos meses do ano, e no resto de todos os anos, a maioria lambuza-se com aquela banha metaforicamente transformada no vil Tribunal Constitucional, no perigo dessa Lisboa cubana, nas afrontas da IV República e nas promessas de uma sempiterna quanto ridícula revisão constitucional. Tudo isto é zero. E só não é menos do que zero porque, bem feitas as contas, ainda serve para enganar três tipos de pessoas: os comprometidos, os conformados e os amedrontados. Chega!