Não consigo aceitar, de braços caídos, que as ocupações hoteleiras e os proveitos por quarto, em Dezembro, sejam reduzidíssimos, ao nível dos piores meses do ano. Claro que há razões exógenas, mas, se não fizermos o nosso trabalho, valorizando os nossos pontos fortes, aproveitando as oportunidades, apenas levianamente poderemos assacar as culpas aos outros. A Madeira e, em particular, o Funchal, têm, na minha opinião, condições endógenas para atrair um maior fluxo de turistas, pagando mais pela excelência daquilo que lhes oferecemos. Para além do permanente "hardware", em Dezembro, temos um "software" que pede meças a qualquer outro destino concorrente. Desde logo, temos um clima primaveril, quando, nos nossos mercados emissores, o termómetro está abaixo de 0º Celsius. A temperatura do nosso mar toca nos 18º Celsius, que é pelo menos tão boa quanto a melhor do ano em outras latitudes e que permite mergulhar no Atlântico, ainda com limpidez e transparência difícil de encontrar noutras paragens. O Funchal está engalanado para receber o Natal e o final do ano. As árvores estão decoradas com as tradicionais "luzinhas" de mil e uma cores (por favor, não as substituam pelos modernaços "leds" pespegados em curvilíneas figuras de gosto duvidoso!). A Avenida Arriaga apresenta quadros etnográficos vivos lindíssimos, que representam bem as nossas ricas origens e vivências. Pelas artérias do Funchal, desfilam, audivelmente, exemplos da variedade dos nossos ranchos folclóricos e das nossas bandas de música. As pessoas deitam a crise para trás das costas. É o mês da festa, metem os sorrisos nos lábios, recebem os seus familiares emigrados, passeiam-se com as suas famílias, fazem as suas compras. Dão inusitado movimento à nossa metrópole. Para além da toda a nossa identidade e originalidade hospitaleira, a cidade está pejada de turistas (de um dia só!) que aqui aportam em Dezembro, mês por excelência de acostagem, no nosso porto, dos imponentes gigantes dos mares. Que acrescentam em termos de paisagem marítima, mas que, sobretudo, tornam o Funchal num "melting pot", num diversificado colorido cosmopolita. Temos uma agenda cultural e social já bem preenchida, entre outros, com as missas do parto, a noite do Mercado dos Lavradores, a corrida de São Silvestre e o espectáculo pirotécnico do final do ano. Temos (quase) tudo! Então o que nos falta? Faltam ligeiros ajustamentos. Falta um "happening" de abertura. Salvaguardando as devidas distâncias para não cair no ridículo, falta algo como o acendimento das luzes na árvore do Rockefeller Center em NYC, que marca o "opening" de todas as festividades natalícias nova-iorquinas. Aqui, falta, de facto, qualquer coisa que crie "buzz", que abra, com pompa e circunstância, o mês da festa. Que atraia e "puxe" para cá. Falta converter todo o centro do Funchal, num "Xtmas Spring Outdoor Shopping" ou algo do género. Falta colocar algumas passadeiras nas artérias comerciais principais e, às portas das lojas, vasos com as nossas flores. Nas vias com mais restaurantes, faltam "show cookings" exibindo a confecção das nossas iguarias tradicionais e não as neonizadas lanchonetes ambulantes da Família Y ou da Família W. Carecemos, permitam-me a heresia, também, de transformar as missas do parto (manifestações de religiosidade que só existem por cá, com enorme participação popular, quer no ritual religioso, quer pagão), em pólos de atracção. Atenção, não pretendo "vender" demonstrações da nossa religiosidade, prevendo alguma acusação, mas, não convém descurar que há inúmeros destinos, por esse mundo fora, que atraem turismo por via do carácter religioso do local e ou das suas expressões religiosas. Falta replicar, um par de vezes, a noite do Mercado dos Lavradores, que já (e bem!) se estende por todo o Funchal. Falta apresentar a Corrida de São Silvestre como um evento apetecível por todos os corredores amadores. No ano passado, já eram muitos os turistas que nela participaram. Não falta muito para que cá venham, especialmente, para a prova. Não é necessário (muito) dinheiro. Mas, se for necessário algum, porque não ir buscar a eventos que não acrescentam nada, no meu modesto entendimento, em termos turísticos? Refiro-me ao Carnaval, sobretudo, na sua vertente importada - o cortejo de Sábado. Não basta dizer que a ocupação este ano, no Carnaval, foi maior que no ano passado. Se o mês de Fevereiro de 2013, em termos de ocupações, foi, graças a Deus, melhor que Fevereiro de 2012, então, porque não seria também a ocupação superior nos dias/semana de Carnaval em 2013? O que é necessário é comparar com os sábados e ou semanas anteriores ou seguintes de 2013. De acordo com os dados que disponho, não houve qualquer variação, para melhor, nos dias/semana de Carnaval. De igual modo, não é suficiente alegar que os turistas aderem ao nosso "sambódromo"! Eu, se estiver, por mera coincidência, em Loulé, no Carnaval, também sou capaz de participar nas festividades carnavalescas. Mas, não vou a Loulé, de propósito, no Carnaval. Nem eu, nem ninguém, imagino eu! Se se justifica como evento popular, para gáudio dos locais, é outra questão. Todos necessitamos de motivos de entretenimento. Bem hajam os carolas do samba. Mas, como cartaz turístico? Faz sentido, no Brasil, onde é a maior festa popular ou em Veneza, com as suas máscaras nobres e caretas brancas, prateadas e douradas, com os seus trajes característicos do século XVIII. Mas, na Madeira? Eu apostava as "fichas" todas no mês da festa. Pela autenticidade e genuinidade do que é nosso e não pela imitação barata de outros. E porque também - e não é despiciendo - permitiria começar a esbater, mais cedo, a nefasta sazonalidade do nosso turismo. E falta vender. Para isso é preciso mais dinheiro. Já contribuí para esse peditório noutros escritos. Neste, vou aludir à ausência de criatividade, imaginação e inovação na promoção. Falta sair da "caixa" e vender, porventura, nos mesmos mercados, mas também a outros operadores e/ou a outros clientes. Sabem quanto suporta a segurança social de um país do centro/norte da Europa com os seus pensionistas no Inverno nesses países? Ou quanto custa aos serviços de saúde a recuperação de pacientes nesses países? Sabem que se paga pelo aquecimento central de um apartamento em Londres em Dezembro tanto ou mais que uma estadia quinzenal na Madeira? Sabem que os londrinos andam extremamente preocupados com as doenças motivadas pela falta de vitamina D, quando aqui, em Dezembro, a temos de sobra? Em vez de, tão somente, aos tradicionais operadores de sempre, temos de ir, também, bater à porta dos serviços de saúde e dos serviços de segurança social. E, porque não, à comunidade médica? Ou às entidades desportivas, de lazer e bem estar? Dá mais trabalho? É verdade. Mas, temos de sair da nossa zona de conforto, deixar de ser preguiçosos e de andar "encavalitados" nos operadores. Temos de "dar corda" aos sapatos e não esperar que os outros façam um trabalho que é, sobretudo, nosso. Deveria ser um desígnio regional. Um imperativo do "trade" público e privado local fazer do mês da nossa festa, o mês do nosso turismo. Diria mais: seria "criminoso" nem sequer tentar! Não custa assim tanto. Afinal, só temos 28.000 camas para ocupar!
Paulo Prada