Quando se fazem análises baseadas em comparações, são condições "sine qua non" para a sua validade, que i) se selecione indicadores relevantes e verosímeis e que ii) sejam comuns e comparáveis. Neste texto, apenas abordarei esta primeira etapa de um qualquer processo de análise. Que é de extrema importância, pois caso este levantamento, tratamento e organização de indicadores não seja conseguido, ficam inevitavelmente maculados a construção de um diagnóstico, a identificação de tendências e o desenho de uma estratégia e tácticas, em que se deve traduzir a acção política tendente à confirmação, consolidação ou negação das principais tendências. No que tange ao Turismo, em geral, ensinam os livros que os dados a atender são o número de dormidas e a percentagem de ocupação mas, sobretudo também, os referentes aos valores de proveitos ("maxime", proveitos por cama), ADR (diária média) e Rev-PAR (proveito médio, por dia, por quarto disponível). Quanto à verosimilhança, nem vou questionar, vou assumir que para o Turismo da Madeira os dados estatísticos que nos são facultados pela Direcção Regional de Estatística não enfermam de quaisquer erros. Arrumado com facilidade o i) acima, importa, em ii), não comparar "alhos" com "bugalhos". É um exercício mais difícil, mas essencial para quem actua como "garimpeiro universal", despojado de motivações políticas, ideológicas ou outras. Comparando valores monetários, como os indicadores estão sujeitos à valorização ou desvalorização da moeda em que estão expressos, há necessidade imperiosa, para avaliações mais consistentes, que não se tenha em conta as evoluções dos preços, que se faça uso de um "deflator" que isola o crescimento real daquele que foi provocado artificialmente pelo aumento dos preços. Ou seja, se a moeda desvalorizou, por exemplo, 40%, nos últimos 30 anos, a "room night", hoje, vendida a €70, tem o mesmo valor da vendida em 1983, ao equivalente em escudos a €50. Não houve qualquer crescimento em valor, mas, tão somente, nominal. Por economia de espaço, não vou comparar os dados da Madeira com o nosso "competitive set". Mas, para uma útil e profícua comparação, para um proveitoso "benchmarking", convém que os destinos que fazem parte do "competitive set" tenham similitudes em termos de oferta, produtos, mercados, clientes "target", promoção, entre outros parâmetros. Ou seja, por exemplo, não creio que faça sentido comparar a Madeira, destino turístico, com os Açores, destino turístico, apenas pelo facto de serem ilhas, portuguesas e atlânticas. Também aqui haverá que não misturar "alhos" com "bugalhos". Voluntariamente, limitei-me a colocar, de forma nua e crua, em quadro, os dados do Turismo da Madeira, de 2012, 2011 e 2007, que obtive de fontes oficiais e os cálculos que fiz a partir desses dados. Não os narrei e, por maioria de razão, não os adjectivei. Não vou, aqui e agora, fazer qualquer exercício para elaborar um diagnóstico, inventariar tendências e, muito menos, delinear estratégias. Deixo essa tarefa a cada um dos leitores. Nada herculeana, pelo menos, quanto ao diagnóstico, dada a clareza e evidência dos números. Não obstante, permitam-me, para concluir, teorizar sobre as virtualidades de uma análise, já agora, bem feita. Julgo que um análise é essencial para aqueles que querem balizar, em termos sólidos, a sua intervenção em determinada actividade económica, pois possibilita delinear a evolução futura e fazer previsões que deveriam/poderiam ser utilizadas na elaboração de políticas mais eficazes para essa actividade económica. Afigura-se-me, de igual modo, fundamental para quem tenha como objectivo actuar sobre a realidade, tal como ela é, para inverter determinado ciclo, se essa for a necessidade, e não para quem apenas pretenda "tapar o sol com a peneira". Para estes e/ou para aqueles que defendem uma receita de bolo a ser aplicada em qualquer lugar, em qualquer momento, basta repetir o dogma que, de tanto ser repetido, assume ares de verdade. Para estes e/ou para aqueles, nem são necessárias análises. Nem bem feitas, nem mal feitas!
Paulo Prada