João Luís Freire «Uma igreja pobre para os pobres». Com esta metáfora, o Papa definiu o sentido do seu múnus episcopal. Entendido denotativamente, estaríamos perante um cenário de ficção de uma Igreja despojada da sua materialidade extremamente valiosíssima, que em nada contribuiria para a felicidade dos «pobres». Mas, afinal, qual o sentido desta pobreza? Lembremo-nos do episódio evangélico da mulher pobre que, apesar da sua condição, deu mais do que todos os ricos (Lc. 21). A pobreza é uma atitude e não um valor quantificável. No entanto, mede-se pelos atos de quem a possui. Maus exemplos não faltam, dados, sobretudo, por aqueles que pregam a pobreza, esbanjando avidamente o fruto da «caridade» dos outros. Quando Cristo, na última ceia, pega na toalha e lava os pés aos seus amigos, deu o maior exemplo do que é ser pobre: servir os outros! Os padres quando tomam «posse» de uma paróquia dizem sempre as palavras evangélicas: «eu não vim para ser servido, mas para servir» (Mt 20). Pois, dizem! O Papa em tão poucos dias já deu mais provas do que é ser pobre do que alguém poderia imaginar. Vejamos: inclinou-se perante o mundo logo após a eleição; rezou com a multidão; pediu silêncio para orar; pagou o hotel onde ficou hospedado; lavou os pés a reclusos e reclusas; e ainda aqui vamos! A pobreza que se pede não é a miséria material da pessoa humana, é a simplicidade que só a Fé sabe explicar. A pobreza revestida da alegria que tanto falta ao cristão! Daqui a mensagem do Papa para que as missas sejam alegres. Ops! Entenda-se o sentido de alegria! O salmo 16 apresenta a alegria que brota do coração e que provoca a exultação interior e, consequentemente, a tranquilidade do corpo. São Paulo diz aos filipenses que se alegrem no Senhor (Fil. 4). É esta a alegria que leva à oração, ao silêncio, à vivência da Fé. Como vemos manifestada a alegria: nos foguetes, nos sinos, nos folclores pós-missas do parto, nas procissões, nas jaculatórias mecânicas, nas ladaínhas insossas, nas celebrações recheadas de roupas modelares, no ruído das palmas, nas missas possuídas de músicas ensurdecedoras que nem uma discoteca à sexta à noite, nas pregações ocas, nas caras ridiculamente sérias nos altares? Enfim. E a oração? O silêncio interior? O canto assente na mensagem evangélica? A catequese para o mundo de hoje? A celebração litúrgica consciente? Neste tempo pascal, por que razão se dá maior ênfase à morte do que à celebração da Luz? Com a morte, todos se calm! E com a falsa alegria, todos fazem ruído. Onde está a celebração da Luz que precede a Ressurreição? Onde está o culto da Fé através das celebrações brotadas da alegria evangélica? Onde está o investimento na pregação do Evangelho? Certamente, não estará nas quinquilharias que povoam as igrejas e nos atos anuais que levam as pessoas a mostrar não saber por que ali estão. Cristo disse aos apóstolos que fossem e pregassem (Mc. 16) o Evangelho a todos e que nada levassem (Mt. 10) porque o trabalhador vive do seu trabalho. É isto que vemos, que os nossos pregadores exemplificam? O padre António Vieira no sermão aos peixes, coloca hipóteses para o mundo estar tão mau: « Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!» É verdade que a Igreja é uma Instituição humana, liderada por homens, mas sob a égide divina. Nesta definição encaixaria a perfeição da vida humana, apesar de tanta imundice. Voltando a São Paulo aos romanos: «por isso, pela graça que me foi dada digo a todos vocês: Ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, ao contrário, tenha um conceito equilibrado, de acordo com a medida da fé que Deus lhe concedeu» (Rom. 12). Termino com São Paulo e a imagem da Igreja/Corpo (Rom. 12): a Igreja é um corpo (Cristo) e cada membro contribui para que esse corpo tenha qualidade de vida, interior e exterior. Se um membro falha, o corpo fica imperfeito. É assim a Igreja! O Papa disse aos reclusos do lava-pés: «Como padre e como bispo devo estar ao vosso serviço. Mas é um dever que me vem do coração». É preciso mais? «… pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar» (1ª Carta de São Paulo a Timóteo, 6). Mas a carne é tão fraca!...(Mt. 26).