Admito que o tema possa parecer requentado, mas não resisto a voltar a ele. Falo da resposta do adjunto do presidente do Governo Regional quando, terça-feira à noite, disse que não tinha pachorra para falar sobre a morte do presidente da Venezuela, onde vivem milhares de madeirenses. Não percebeu que não era a sua opinião que interessava, era a da Presidência. E, sobretudo, não percebeu que abriu uma janela importante para qualquer madeirense entender que não é o adjunto que não tem pachorra. É quase todo o Governo que não tem pachorra para nada. Nem para governar, nem para deixar governar. Quando muito, governa-se quem está no Governo. E que se governem também os madeirenses, esses “cachorros”, esses “patas rapadas” esses “tontos” ou vadios que não querem trabalhar, no dizer simpático do presidente do Governo Regional. Na verdade, o presidente, um dos casos raros da vida política nacional que passa ao lado da crise e acumula vencimento com aposentação, há muito que deixou de ter pachorra para a Madeira. Prefere, de longe, o centro da Europa política. Entretanto, arrasta-se por aqui e arrasta-nos com ele, mas sem ideias, sem projectos, sem estratégias, sem planos, sem nada. Sempre foi assim, mas agora nota-se mais. Antes, ainda podia ir ao adro das igrejas, pegar numa folha e rabiscar umas quantas promessas. Podia estender um papel em cima do motor do carro e definir o traçado de uma nova estrada. Podia ameaçar com o separatismo. Com a ideia de que sem o seu partido não havia reformas para os velhinhos, nem escola para as criancinhas, nem igrejas para uns e outros. Agora não! Agora resta o adro das igrejas, as folhas de papel branco e os carros. Já não há dinheiro para obras, o povo está farto de promessas, o separatismo não cola, as reformas já lá foram, as escolas nós pagamos e as igrejas também. E agora que é preciso governar, o Governo finge que governa. Salvo raras excepções, apresenta ideias e eventos, e quando não os tem inventa. Vai a tudo o que aparece e inaugura tudo o que é pintado de fresco. O resto do tempo serve para a pequena política e a luta partidária interna. Agora, quando se levanta o tapete que cobre esta Madeira há quase 40 anos, descobre-se uma herança pesada. Um fardo que até os que aparentemente estão próximos do que se intitula de único importante começam a deixar cair. No fundo, também eles percebem que isto vai mal, que o caminho já é outro, que não vale a pena esperar mais por quem já deu o que tinha a dar. E também eles esperam. Também eles se arrastam e nos arrastam por aí até ao dia em que o homem do leme decidir, ou alguém decidir por ele, que acabou. O leme não funciona, o barco andou sozinho até encalhar na costa. E não é preciso ser adivinho para se saber quando chegará esse dia. Será quando o povo disser que já não tem pachorra para o presidente do Governo.