A erosão do tempo parece nivelar tudo pela acção da sua passagem inexorável. As Primaveras já não trazem o sol que inundava o corredor da casa da minha infância. São estações do ano que chegam depois do Inverno e partem antes do Verão. Já não encontramos no olhar do outro quem não víamos desde toda a eternidade. Já não nos vemos e já não somos vistos. E às vezes já nem isso importa. E, contudo, o extraordinário é agora, pois cada momento é único. Dá-se, vem e vai e não regressa. Mas este "extraordinário" é a primeira vez de tudo na vida. O rasgar total da vida na eternidade à escala mundial. O Novo Testamento chama-lhe o Milagre da vida. No Milagre da vida está o Mistério da Morte. "Na origem do nosso ser crentes existe um encontro, único no seu género, que assinala a abertura de um mistério escondido durante tantos séculos (cf. 1 Cor 2, 7; Rom 16, 25-26) [Fides et ratio]". Cada lapso de tempo está configurado por um Mistério e por um Milagre que o torna agente da possibilidade radical do encontro consigo no outro. Somos herdeiros de facto de uma herança que é tão complexa que o reclamá-la nossa é da nossa responsabilidade. O que nos coube em herança é esta demanda pelo sentido da promessa, pelo sentido da mensagem da promessa que nos leva por aí além, sem horas como pedras de apoio, mas na navegação livre da ida até si, à fonte ou à foz do rio da vida. A vida eterna é a configuração radical de cada instante da nossa vida. Sub specie aeternitatis ("sob o olhar da eternidade") diziam os antigos dá-se cada lapso de tempo das nossas vidas. Dá-se o lapso de tempo que são as nossas vidas. Escondido como que do canto do olho está o nosso encontro, o nosso ser a encontrar-nos. No dia 12 de Maio de 2010, genuflecti-me agarrando-me ao Santo Padre, que é como os católicos alemães gostavam de chamar a Sua Santidade, o Papa Bento XVI. O que eu lhe queria ter dito, disse. Levava encomendas no meu coração que só ele poderia aliviar. O que eu lhe disse foi circunstancial e não importa. O Santo Padre Bento XVI, Sua Santidade, o Papa, representava o Senhor da Vida, o Vínculo, a Oferta deste nosso encontro. Na compreensão da perplexidade do naufrágio eminente e total da vida, no arrostamento com o mistério da morte, o Santo Padre representa a possibilidade das vidas de todos aqueles que testemunharam a Eternidade e afirmaram o Milagre da vida. Na possibilidade intolerável do mistério da morte, o Santo Padre representava a possibilidade paulina de que ninguém tenha sido ou venha a ser tragado pela morte. "O verdadeiro ponto nodal, que desafia qualquer filosofia, é a morte de Jesus Cristo na cruz. Aqui, de facto, qualquer tentativa de reduzir o plano salvífico do Pai a mera lógica humana está destinada à falência. 'Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o investigador deste século? Porventura, Deus não considerou louca a sabedoria deste mundo?' (1 Cor 1, 20) interroga-se enfaticamente o Apóstolo." [Fides et ratio]. O Papa é o Vigário que torna de novo presente os que se encontraram nas costas da Terra (Eurípides) e se foram, os que viveram a vida inteira apaixonados por Jesus e nunca o viram: Representa a possibilidade do mundo ser "kyriakon" ("pertença do Senhor"), enfim representa a possibilidade de um lugar para que as vidas das pessoas aqui tenham cabimento. Por isso, a genuflexão não nos faz cair só e prostrar ante a desgraça. Testemunha a grandeza e a possibilidade de nos levantarmos do chão. Na hora em que Bento XVI se retira fica o seu magistério. E fica, claro está, o desafio de alargarmos espaços de racionalidade. Na Igreja como no mundo. De sermos consequentes com uma razão que sabe que não é só por ela que se encontra a verdade. Mas também a importância de cultivarmos uma fé "amiga da inteligência".

Roque Martins