Há quanto tempo começou a guerra'! Estarás ainda à minha espera? Terei tempo para te contar guerra? Dir-te-ei que o teu rosto não mudou, que o teu olhar me manteve atento quando todos adormeceram, que a tua voz há-de apagar o eco da batalha travada o amanhecer? Saberei mostrar-te que se voltar será para te levar comigo'! Que te virei buscar para nos juntarmos aos que partiram em direcção ao passado, cada vez mais longe, onde não há fim porque tudo findou? Que os mortos dançam porque já não podem morrer? Andavas sobre a água e vieste de tempos que desconheço. As tuas palavras atiçaram o fogo lento que me abraçava. Os teus olhos eram-me estranhos, mas adivinhei-te o corpo e a minha alma quebrou de te não saber o rumo. Havia então modos de chegar ao Norte e os glaciares não passavam de visões. Agora as marés cortaram os caminhos e impedem-me de te ver: que traços terás pintado, que destino te escolheu? Eu faço mapas noite fora, armo os meus navios e consulto os sábios, mas estes são cegos e falam-me apenas de um encanto longínquo de oceanos em fúria e de tormentos sem fim. Esta é a montanha que em breve esconderá o sol. Aqui a noite é mera obra de uma Fortuna adversa. As palavras não passam de silêncios cortados. Nem as bombardas nem os alaúdes sabem afastar a escuridão. Para acender fogueiras precisamos de lenha, e a floresta começa no fim do vale. Ninguém lá vai. Sete, oito séculos terão decorrido desde a queda do Império. Os mais afoitos partiram há muito. Nós, os que restamos, não sabemos por quem esperar. Vivemos de temores, procurando abrigo nas ruínas de pedra, Temos medo. Não somos bárbaros, como esses povos além do Reno. Aqui havemos de ficar. E tu, porque vieste até aqui? Julgavas poder sair? Lembra-te, meu amor, a canção que escutas, austera e grave, não é tocada por músicos, mas pela memória. Lembra-te, por favor, já fomos pequenos e assustados, o nosso mundo já acabou no fim do mar e tinha então por fronteiras as terras áridas dos infiéis. Não sabíamos explicar a passagem certa das estações e os mistérios do Firmamento. Cada um tinha a sua sorte e por todos velava Deus. Hoje os assombros de sempre acordaram de um sono tão antigo. Pouco mudou - avançamos ainda por entre o Céu e o Inferno. Ouve melhor: a noite como um grito amargo e árabe. À sombra dos meus livros tenho atravessado os anos que passam. Aqui guardo as iluminuras que desenhei em silêncio. Aqui reina a minha fé. Não importa de onde vim, mas onde estive. Não importa quem eras, mas para onde foste. À sombra destes cantos viveram os meus ares. O nosso Deus era outro, mais leve, menos frio. O nosso Deus era, sei hoje, mortal. Eu fui poupado para escrever histórias, relatos das idades que ninguém viu, e assim para sempre. Se aqui estivesses contar-te-ia mil lendas: teríamos um sono de palavras.
Renata Camacho