Os artistas sempre cruzaram as fronteiras nacionais e anteciparam durante séculos os movimentos migratórios que tanto enriquecem a Europa. A mobilidade garantiu a disseminação da arte, revitalizou teatros e casas de ópera ou garantiu a fundação e continuidade a academias e conservatórios. O apogeu desta mobilidade dá-se gradualmente depois da II Guerra Mundial. Nos nossos dias, mesmo com a Europa unida, são muitos os obstáculos que enfrentam todos aqueles que procuram desenvolver uma atividade fora do seu país. Desde 2006, a União Europeia está sensível ao problema, pois esse foi justamente o ano da mobilidade laboral. Muitas das dificuldades dessa mobilidade têm a ver diretamente com a fiscalidade, os vistos de permanência, as licenças de trabalho, o direito de residência, a segurança social, os direitos de autor, entre outros. Os Estados membros iniciaram já a coordenação dos seus impostos e regimes legais de modo a adotar as diretivas da União Europeia, encorajando assim a mobilidade entre artistas. Vários programas europeus incentivam este movimento tais como o Euromed youth ou o EuroMed heritage. A mobilidade dos artistas foi até mesmo tema da comunicação sobre cultura, pela Comissão Europeia, em 2007, integrando a Agenda Europeia da Cultura, desde Novembro desse ano. A preocupação vai acima de tudo para a geração dos 18 aos 35 anos que precisa de entrar no mercado de trabalho. No caso da música, os jovens formados pelas escolas artísticas, pelos conservatórios e academias superiores devem poder aceder a uma carreira. Os seus talentos devem ser valorizados. A remuneração deve ser paga de modo transparente e legal. No presente momento, tendo em conta o plano inclinado das finanças públicas nacionais e regionais, com repercussões sociais graves e irreparáveis, o movimento dos nossos artistas é inevitável. A nossa mobilidade está no entanto em contraciclo com a Europa. Os mais novos partem, porque as estruturas não existem ou têm os dias contados. Saem, porque a ultraperiferia lhes pesa a vida impedindo-os de sonhar. Muitos têm, e ainda bem, um talento do tamanho do mundo e ouviremos falar deles, qualquer dia.
Vítor Sardinha, Músico