Fim de ciclo. É uma expressão que tem sido muito usada por estes dias para definir a actual situação política na Madeira. No Funchal e em Lisboa. Eu própria já me socorri dela neste espaço uns pares de vezes.

Mas o que é o fim? É a saída anunciada de um homem só? São perguntas como esta que directa ou indirectamente são colocadas no livro ‘Evolução ou Continuidade, reflexões do sistema autonómico’ que o antigo representante da República para a Madeira apresentou no início da semana no Funchal.

Pode-se dizer que Monteiro Diniz podia ir mais longe. Chamar os bois pelos nomes, vingar-se dos que o não o souberam receber ao início, ajustar contas, gozar o prato. Mas o autor revela que pretendeu apenas dar ‘subsídios’ para uma potencial mudança no sistema político-governativo, que este alegado fim de ciclo pode representar.

Sugere, entre outras coisas, o fim do cargo que representou. Visão dos comentadores de café: “Ah, pois agora que saiu é que se lembrou”. Análise mais profunda: “Já o tinha defendido antes, quando estava em São Lourenço”. Defende ainda que os poderes de fiscalização atribuídos ao representante passem para o presidente da Assembleia Legislativa, que estaria no centro da vida política regional. Lógica dos que debatem na rua: “Olha este, vem dar mais poderes à rainha de Inglaterra”. Análise mais séria, sem fulanizações: “Acabaria assim a hegemonia do presidente do Governo Regional e uma parte do diferendo Lisboa/Funchal, uma vez que a Região seria totalmente responsável pelo seu futuro”.

Não quer dizer que Monteiro Diniz tenha razão. Poderá haver outros caminhos. Mas também é certo pela leitura do livro que muitos foram abandonados por razões que são explicadas. Era caso para um debate sério, sobretudo para um conjunto de gerações que nasceu com a autonomia e a quem nunca perguntaram se era este o modelo que queriam. A autonomia não é uma conquista de partidos, é uma conquista da liberdade. É dos madeirenses e dos açorianos que deviam ser os primeiros a definir o rumo que querem para eles próprios. Não é apenas a Lei de Finanças das Regiões Autónomas, nem o dinheirinho que mandam.

O antigo representante diz não saber se os madeirenses estão disponíveis para uma mudança no sistema e se os partidos da oposição querem realmente fazer esse caminho. A avaliar pela plateia que esteve presente, diria que o conselheiro teve a resposta. Sub-representados, os partidos não tiveram perguntas a fazer quando o autor se disponibilizou para isso. Jardim esteve lá, a sociedade civil não apareceu.

É mais fácil continuar a bater na Marina do Lugar de Baixo, como o mar faz anos a fio. Comentar nos cafés, nas redes. A mudança que tantos clamam e apregoam, o fim de ciclo é apenas mudar alguns actores principais, manter o compadrio, as festas de garagem, o despeito de assessores, as incompatibilidades, o Estatuto que escuda e tudo desculpa, a teia de sempre. Seja por dentro ou por fora. Vá, com uma imagem mais polidinha, que fica bem. “Às vezes é preciso mudar qualquer coisa para que fique tudo na mesma”.