Ana Silva Em tempos em que a solidariedade social é um imperativo, não parece de bom tom bater no ceguinho. No entanto, alguns merecem-no quase até à hemorragia interna. Já dizia a minha avó, Pontassolense de gema e heroína do "trabalho na montanha agreste" (das que foram para a Revolta das águas, ao invés de pensar que cantar Grândola Vila Morena já era fazer contestação que chegue e um acto de coragem e ousadia nunca vistos) que errar uma vez é humano mas que errar duas é burrice. E errar vezes sem conta? O que será? Demência cavalgante? Anencefalia? Há dias, numa deslocação à vila da Calheta, pude presenciar, com certa estupefacção, os grandes senhores do Concelho, a supervisionar a reconstituição do pseudo areal, com mais prosaica e "macheza" do que os capitães da Gabriela. Lembrei-me que estávamos em Março, no Inverno (a estação associada aquela coisa chamada mau tempo). Vieram-me provérbios à cabeça… "Se o Inverno não faz o seu dever em Janeiro, faz em Fevereiro"…"Em Abril águas mil"… Mas quem sou eu para me por com estas indagações, se quem fora eleito por, pretensamente, ser entendido nos assuntos locais, estava já a se preparar para o Verão com mais afinco que uma socialight no solário? Em vez de areia, vi também o meu dinheiro lá espalhado, nota por nota, pronto a ser amarfanhado pelas nádegas em tanga ou fio dental que pretensamente, trabalhando para o bronze e comprando um perna de pau no supermercado local, trarão o retorno do investimento. Este Domingo, não cumprindo as orientações inerentes ao Alerta Vermelho, lá visitei novamente tão pitoresca vila e, uma vez mais, lá vi o meu dinheiro ser levado gulosamente pelo mar enfurecido. Quase desejei que levasse mesmo toda a areia, grão a grão e que por um mecanismo de retribuição cósmica qualquer, a devolvesse ao deserto e restituísse o nosso calhau lodoso, só para que aprendam de uma vez por todas a não persistir no erro, na arrogância torpe. Tal como desejo, sempre que passo no Lugar de Baixo, que o mar derrube as muralhas idiotas que o enfrentam e desalinhe os ancoradouros dos barcos como peças de dominó, para que não insistam em os construir de novo só para validar o seu ego e prepotência. Lá se foi o tempo em, que cegos e ingénuos, acreditávamos que o dinheiro vinha lá de um oásis qualquer e que era só construir impunemente e que a factura não nos chegaria a casa. Lá se foi o tempo em que acreditávamos que as festas de um concelho como o nosso podiam ser faustosas, e que não éramos nós a pagar a conta do dinheiro que explodia no céu à meia-noite nem o cachet das estrelas da televisão que vinham cá à terriola sorrir e encher o bolso. Outubro está perto e só sinto uma pena visceral das alternativas até agora apresentadas serem ou "mais do mesmo" ou meros espectros, porque o voto terá que ter poder ou a revolta popular. Porque "quando os governantes perdem a vergonha, o povo perde o respeito".