Nesta crónica, faria sentido "cantar" a Grândola Vila Morena e assim reviver uma canção que em Abril, saiu da enorme alma de José Afonso e ficou guardada nas almas agora apertadas de muitos portugueses. Mas ao regressar da manifestação de 2 de Março, mudei de ideia! "Grândola" está tão presente no coração e na voz deste País, que é melhor deixá-la onde está, atenta e vigilante pois parece haver alguma gente com memória curta a precisar de uma "revisão da matéria dada"! Música por música, escolhi uma canção do Ney Matogrosso para título desta crónica. O "BICHO" desta canção, é para mim o "PODER dos POLÍTICOS" que pensam ser eternos do alto da sua prepotência! Ao contrário dos outros bichos vulgares, o "BICHO do PODER" escolhe o seu dono. Tem uma particular preferência por alguns políticos, vá se lá saber porquê! Esperto, o "BICHO" de início opta por uma estratégia de sedução primária. Começa por oferecer ao seu dono um carro preto com chauffeur e bandeirinha, cartão dourado para as despesas, as primeiras filas nos espetáculos e a mesa reservada no melhor restaurante. Entretanto, abre-lhe as páginas dos jornais e os noticiários da televisão. Reconhecido na rua qual vedeta de telenovela, o seu dono é cumprimentado por toda a gente. Brevemente, criancinhas a mando dos pais vão-lhe dar beijinhos e os mais reverentes, farão uma pequena vénia talvez a caminho de lhe engraxar as botas. A vulgar vaidade do seu dono é desculpável e o seu deslumbramento compreensível! Porque ainda é pequeno e franzino, o "BICHO" come pouco e quase nada exige ao seu dono a não ser algum trabalho, palavra fácil e pronta, sorriso afável, gesto simpático. Porém um dia, o "BICHO" já mais gordo e agressivo, começa a ter um comportamento estranho. Arreganha o dente a quem diz mal do seu dono, empurra quem se lhe atravessa no caminho e assusta preventivamente o cidadão mais atento. Crescem-lhe uns estranhos apêndices que rapidamente se transformam em tentáculos. Se o dono do "BICHO" tiver caracter e a ambição não lhe toldar a vista, logo sentirá que é chegado o momento decisivo da sua carreira política: ou tem coragem e mata logo o "BICHO" na praça pública, ou vai-se embora, abandonando aquele "BICHO" perigoso que acaba por sucumbir à fome. Num gesto de nobreza e sabedoria, mostra assim o desprendimento sereno de quem cumpriu um serviço e não está agarrado ao "BICHO". Quando nada disto acontece, o "BICHO" pressente a fraqueza do seu dono, ganha uma fome insaciável e muda de dieta. Enorme, o "BICHO" alimenta-se agora de favores e cumplicidades suspeitas, de gente comprada, intrigas mesquinhas, rasteiras dissimuladas ou mesmo pequenas traições. Fascina-o a cor do dinheiro e a corrupção que paira no ar, excita-o. Fica mais forte e luzidio sempre que o seu dono ameaça, insulta ou faz um gesto ordinário e obsceno. Para isolar o seu dono, o "BICHO" come-lhe os amigos, os companheiros leais e cerca-o de solidão onde ele só se ouve a si próprio. Invade a sua privacidade e já nem respeita o aconchego dos afectos mais tranquilos. Finalmente, escolhendo o dia da tempestade perfeita, o "BICHO" que não tem alma, memória ou dignidade, abandona o seu dono moribundo numa esquina sombria da História e escondido na urna dos votos eleitorais, lá fica à espera da próxima vítima. Alguém que não tenha estatura de caracter ou coragem para o afrontar. Alguém que cego pelas luzes da ribalta, nunca consiga ver que o espectáculo já acabou e que apenas o seu fantasma ainda não saiu de cena!

Manuel de Brito