Martins Júnior Nem de propósito. Corri a reler "Fé Bíblica e Etica Social", de E.C.Gardner, edição brasileira de 1965. Tudo porque dois acontecimentos marcaram o último fim de semana: a mega manifestação dos portugueses e a leitura do Êxodo na liturgia de domingo. Juntou-se-lhes toda uma torrente de analistas, desde jornalistas, políticos, académicos, gente de igrejas, uns pró outros contra, sobretudo entre esta última classe.. Mas o que é que se leu no Êxodo: "Os clamores do meu povo, escravo no Egipto, chegaram aos meus ouvidos…Escutei os seus gritos às mãos dos guardas…Vai, Moisés, vou enviar-te aos filhos de Israel para libertá-los do faraó. Vai!" Descontando o antropomorfismo da narrativa bíblica, escrita há milénios, é caso para perguntar: o Deus Iavé que foi sensível aos gritos angustiados do povo hebreu, será que esse Deus não terá ouvido também os clamores de um milhão e meio de pessoas que, sábado passado, se levantaram do chão negro das ruas deste país?!... Serve esta reflexão de mote a outras tantas análises que se têm feito acerca da intervenção de figuras públicas da Igreja e das críticas dos modernos faraós contra quem --- cito, por todos, o bispo Januário Torgal Ferreira --- tem ou teve a "ousadia" de denunciar injustiças e descriminações. A (de)formação preconceituosamente pacifista das crenças foi a única responsável pela definição que algumas correntes deram à religião, classificando-a como "ópio do povo". No altar dessa deformação foram e continuam a ser sacrificados, malsinados e excluídos tantos cristãos, sacerdotes e até bispos, esses sim, fiéis ao mandato bíblico sintetizado no Êxodo:"Os clamores do meu povo"… A luta de Moisés não foi só de palavras nem de cânticos patrióticos, chegou mais dentro, atingiu o próprio faraó no berço do seu primogénito. Comparadas com essa luta, as manif's e as greves de hoje não passam de tímidas amostras. Pena é que ainda haja gente, vítima da escravidão e do preconceito, que embarque no falso pacifismo da religião! E porque o tema é apenas mote e não glosa, limito-me a revisitar E.C.Gardner no livro citado, pág.437: "A Igreja tem responsabilidade de trabalhar para a implantação da justiça na totalidade da ordem social, não somente por uma ampla dose de boa vontade, mas buscar a mudança e reconstrução das estruturas institucionais, atacar os muitos problemas que emergem, no sentido de eliminar a descriminação e erradicar o preconceito, nas eleições, nos empregos, nos direitos civis, na educação, nos alojamentos, nas igrejas".