Carlos Santos Receio os consensos; sobretudo os mais amplos, cujo desfecho arrasta, quase sempre, o irremediável. Nesse momento, crescem protestos, chovem petições, mas a fera já liquidou a sua presa. O sangue escorre; o governo lava as suas mãos. É o hábito. A propósito de Desenvolvimento, para alguns uma banalidade ... existem linhas que favorecem o consenso a velocidades indizíveis. Quem não concorda que o mar será sempre o nosso destino? E que uma certa gravidade, uma força inescapável, reúne o feixe de todas as rotas dispersas pelo Atlântico na nossa feérica Terra Lusa? Abreviemos, quem não concorda com a urgência de um novo Terminal de Contentores? Aqui, os ânimos abrandam. As duas palavras não auguram nada de bom; e o anúncio melífluo da criação de dois mil postos de trabalho, quando a crise está prestes a deflagrar um milhão, não deixa grande margem de manobra. Óptimo. O Terminal será na Trafaria. Acordamos com as duas páginas do Expresso; uma faixa azul, de lado a lado, desenha a belíssima linha de costa das duas margens. Os acidentes não são, apesar de tudo, irreparáveis. Contudo, uma mancha inesperada (algo que alguém criou, decerto, por engano), define um tumor na zona da Trafaria. Tem nome: Novo Terminal de Contentores. Um polígono laranja, 1ª fase; um polígono verde, 2ª fase. É tudo. Será que foram ouvidas pessoas sensíveis ao território? Arquitectos paisagistas, poetas, urbanistas? Bom, compreende-se... há lá tempo para essas coisas! Existem estudos, pareceres... não se percebe a preocupação. E para quê insistir na reserva ecológica, na biodiversidade, na linha de costa? É ou não importante o crescimento ? - Mas, sr. Ministro, desculpe, que Paisagem iremos ter? - ... a inevitável.