Jardim voltou a insistir ontem que se estivesse em Lisboa ia à manifestação. Convenhamos que o nosso Alberto João é uma fera política em festanças, apesar de hoje residuais e cingidas a inaugurações de obras sem um cêntimo de comparticipação pública, como casas de óculos e salas de escuteiros, onde o líder do Executivo ensaia vozes de protesto – “não vale a pena ladrarem, chachorros!” - contra os manifestantes, seguindo de passo acelerado e peito inchado, bem no centro da 'caravana' cercada por uma muralha de seguranças e de polícias armados de máquinas fotográficas e bastões.

Não é a primeira vez que o presidente exorta que se pudesse também se manifestava. E quem o conhece sabe que não será a última. São encenações sublimes, com honras de propaganda em primeira página do jornal do regime pago pelos madeirenses, para dar a ideia que o presidente do Governo Regional tem mais razões para vaiar do que para ser vaiado. É mais um 'agarrem-me senão eu vou lá também protestar', por mais que se saiba que a vontade dos manifestantes - estejam eles no Funchal ou em qualquer uma das 40 cidades onde o povo saiu à rua para dizer 'que se lixe a troika' - seria transformar num saco de boxe um qualquer governante com a estirpe de Jardim, despesista, prepotente, irresponsável e investigado pela Justiça Portuguesa por gestão danosa do dinheiro dos contribuintes.

É claro que a 'manif' popular na Avenida da Liberdade não é o desfile alegórico da Avenida do Mar. Não há ali sambódromos para o rei encarnar a figura de bombo da festa e lançar vaias contra Lisboa e contra Merkel, fazendo-se passar por presidente vigoroso, irreverente e popular diante das câmaras das televisões nacionais. Penso que já ninguém passa cartão àquela política de folclore, conhecidos que são os efeitos auto-destruidores desta espécie de colonização jardinista da Autonomia que um dia foi dos madeirenses. Depois, não seria difícil prever que, se alguém o apanhasse em Lisboa, na tarde do último sábado, Jardim ia engolir de uma só vez décadas de insinuações ao separatismo e seria colocado no seu verdadeiro posto: de um homem com 36 anos de responsabilidade governativa, que faliu uma região portuguesa e que entregou o seu povo como carne para canhão a troco do resgate dos euromilhões da 'troika'.

Mas vamos lá fazer um esforço e levar a sério as palavras proferidas pelo presidente, na zona VIP das chegadas do Aeroporto da Madeira: “Eu também, se vivesse em Lisboa, ia à manifestação”, afirmou recém regressado da Irlanda. Mas que duende lhe mordeu? Se já não há nada para governar na Madeira, Jardim bem que poderia juntar a sua vontade à vontade dos madeirenses. Nada o impede de emigrar uma temporada para Lisboa e de ir passear a barriga pelo areal da praia do Guincho, qual Universidade de Verão do Porto Santo. Primeiro porque o avô já tem 70 anos e só sabe contar histórias do passado e já não enxerga o futuro à frente. Depois porque até tem lá casa à borla (paga com o dinheiro dos madeirenses) e justificava a utilidade daquela cara mansão no n.º 5 da Rua Alto do Duque, zona nobre do Restelo, ideal para o repouso da terceira idade.

Mas que contributo daria um nobre numa manifestação de pobres sem comer, de jovens sem emprego, de trabalhadores sem salário, de desempregados sem subsídio, de gente forçada a emigrar, de velhos com pensões 50 vezes abaixo dos rendimentos que aufere? Se quiser entrar nalguma 'manif', Alberto João Jardim só teria espaço para juntar-se ao 'Movimento Reformados Indignados', criado por Filipe Pinhal, ex-presidente do BCP, acusado pela CMVM de manipular acções em bolsa e de lucrar fortunas. Penso que o governante trabalhador-reformado mais bem pago do país, na iminência de responder ao DCIAP pela ocultação de mil facturas de obras públicas avaliadas em vários milhões de euros não reportadas às instituições, ficaria bem representado naquele grupo dos vovôs milionários chupistas que se manifestam horrorizados com o 'roubo' fiscal aos seus afortunados bolsos.

P.S.: Sobre os mil manifestantes que se insurgiram no Funchal, não ouvimos (pelo menos até ao momento em que escrevo estas linhas) uma palavra. Se ao menos estivesse atento, Jardim ou um dos seus assessores teriam ouvido: “Que se lixe a troika e que se lixe Jardim”. Que são farinha do mesmo saco. Sobre a contestação na terra que governa, Jardim é cego, surdo e mudo. Tanto quanto o seu obediente jornal pago por todos nós, que não ousou reproduzir uma palavra de ordem que fosse ou de ilustrar uma fotografia de um protesto onde estiveram mil. Não se passou nada por estes lados. Mas bastou Jardim ir ao Comité das Regiões em Dublin para sair dali um tratado em política europeia e relações internacionais, completamente alheio à sua própria responsabilidade governativa: “Os governantes têm de ter sensibilidade para perceber as mudanças que têm de efectivar. Os partidos estão a ficar desacreditados aos olhos da população. Ou fazem uma forte inflexão de marcha ou então vão surgir coisas novas em Portugal”. O diagnósitico está correcto. O problema é o paciente que não aceita a doença. Mas para isso, o povo tem boa cura.