O Django Libertado, de Quentin Tarantino, lembrou-me um outro filme, McCabe & Mrs. Miller. O Tarantino é sempre um sucesso, todos os seus filmes têm aquela característica para a qual em português não há palavra: são entertaining. Muita gente houve, ofendida com o Django. E de facto, pode ser considerado ofensivo, pegar num período da história em que um grupo de pessoas era morta, torturada e condenada a viver sem cidadania, para à volta disso filmar umas piadas de café. Pior que isso é a ideia implícita no filme, que a condição para a perpetuação da escravatura foi a passividade e conivência dos escravizados. Felizmente pode o Tarantino fazer os filmes que quer, e os cidadãos criticar. Agora, não vamos dizer que um hamburguer e um cachaço de vaca alentejana são carne por igual. McCabe & Mrs. Miller passa-se na mesma altura que o Django. No meio do nada constrói-se uma igreja. E está definido o centro da futura cidade. Depois chega o empresário, que vem satisfazer as necessidades básicas, neste caso, álcool e prostitutas. Depois os emigrantes para criar os serviços. Mrs Miller, uma senhora que gere espaços de diversão, chega depois para ser sócia de McCabe. E é ela quem vai transformar um estaleiro numa cidade. Como? Construindo uma banheira na casa de prostitutas. A partir de agora os homens são obrigados a tomar banho, está instaurada a civilidade. É um filme que é como se passasse num período anterior à consciência humana. As pessoas deambulam, tentam fazer os seus negociozinhos, ninguém pensa no futuro, morre-se muito... Dois momentos fantásticos; Quando Warren Beaty olha nos olhos de uma mulher e quase consegue ver que ali existe um ser humano, e o Leonard Cohen a cantar 'Sisters of Mercy', e a gente a ver uns corpos entropecidos...
Filipe Ferraz - Realizador