A execução orçamental de Janeiro é elucidativa. As falências, a fome, a entrega da casa, o abandono escolar, a emigração, os suicídios incendeiam o país. Perspectivam-se para este ano índices de desemprego e de contração da economia ainda mais dramáticos e, como resposta, o governo admite a necessidade de rever as previsões! Seria mais útil rever as políticas que só afundam o nosso país. Seria, se o governo quisesse; mas não quer. Ambiciona mais e melhor obediência, num cego e servil lambe-botas a Merkel, aos mercados e aos seus interesses, numa obsessão de ficar bem visto 'lá fora', ainda que à custa de um país exangue, cá dentro. No meio desta calamidade, brinca com as palavras - ora garante que Portugal não pedirá à troika nem mais tempo nem mais dinheiro, ora espera que a Comissão Europeia proponha mais um ano para corrigir o défice - alimentando o medo e a insegurança. Esta gente, alcandorada no poder, tem um assumido desprezo com o que se passa no país do rés-do-chão. Quanto mais tudo piora, mais nos repetem que é preciso respeito e que, nas eleições de 4 em 4 anos, podemos mudar o governo pelo voto. E que isso é que é democracia. E no entretanto, é baixar as orelhas, deixando que a violência das medidas 'muito para além da troika' arrasem a democracia - porque a legislatura tem que chegar ao fim! E no entretanto, temos todos de nos comportar como ovelhas mansas, ordeiras, caladas e obedientes, mesmo que o cão nos morda as patas e nos queira encaminhar para o matadouro? Há por aí quem se manifeste muito desgostoso com a 'falta de respeito' devida ao ministro Relvas, em Gaia e no ISCTE. Que há que ter respeito pelo ministro. E o respeito que o ministro deve ao povo, é de qualidade inferior? Ou, simplesmente, não deve respeito nenhum? E logo este ministro que, além de concentrar tudo o que de mau a política do governo tem, deixa sempre no ar uma terrível impressão de mau carácter, bem revelada nas últimas aparições: num dia achincalha uma canção que é um símbolo político de resistência e liberdade e, no dia seguinte, interrompe no ISCTE a conferência sobre jornalismo; se já é provocação bastante ir falar sobre este assunto quando é o responsável de conhecidas pressões sobre jornalistas e o mentor do escabroso processo de venda da RTP, é provocação acrescida que tal personagem que aconselha os jovens a emigrar entre, rodeado de seguranças, numa sala cheia de estudantes! Estavam à espera de quê? Que fosse recebido com abraços e beijos? Ou toda esta agitação resulta apenas de se saber que o meio universitário é um excelente barómetro do sentir da sociedade e a crispação dos estudantes é, sim, um sinal do desespero da rua? A rua, que sabe que se esmifram sempre e só os mais pobres e a classe média e ainda lhes exigem que se portem bem. A rua, que sabe que não a ouvem se rastejar: «Desculpe, sr. ministro, só queria dizer-lhe que já não tenho emprego nem casa e que ando por aí a tentar sobreviver. Os meus filhos têm fome. O que é que eu faço?» ou, se for o caso, «Ó sr. Primeiro-ministro, eu gostava muito que me perdoasse por ser reformado e ainda estar vivo. Se achar por bem, e apesar de eu ter descontado sempre, esteja à vontade, pode cortar mais na reforma.» A rua - este povo a quem todos os dias confiscam direitos, perspectivas e futuro - que só sai à rua quando não encontra outro caminho para mostrar a indignação, a revolta e a necessidade de luta, fê-lo no sábado. Foram manifestações pesadas, de dor e de sofrimento mas também mostraram a vontade de querer uma saída, de procurar alternativa. Desta espécie de gente que governa nada se espera e a legitimidade de que tanto se reclama há muito que está enterrada, debaixo de um programa de recuperação económica e social sistematicamente violado. Pelo contrário, muito se exige a quem é oposição. Que saiba escolher um caminho e que o indique com clareza, lucidez e firmeza; compreenda e procure respostas para os problemas novos que se colocam neste mundo em convulsão em que vivemos; tenha respeito e humanidade; evite que o país se desfaça em migalhas de miséria e fome. O povo canta. Mas não escolheu a canção por acaso.
Violante Saramago Matos