Sempre que chove com maior intensidade ou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera lança alertas a condizer com as previsões meteorológicas adversas surgem nas redes sociais uma espécie de especialistas em (bom) tempo a espalhar fotografias da Madeira típica dos dias de Verão ou da Primavera das flores, das belas paisagens sem sombras nem nuvens e do litoral sem rebentação.

Não contentes com a estratégia de contra-informação deliberada, facilmente vencida pelos factos, optam então por contestar o rigor dos boletins oficiais, contrapondo-os com o desejo de “abertas” e com informações sopradas por sites fiáveis, usados por surfistas e até por engenheiros. Ontem, houve quem encontrasse um “que é do melhor” e que “não previa chuvas maiores que 5mm por 3 horas”. Brilhante! A chuva registada no Areeiro foi de 267 mm em 12 horas. Chega?

O vento a dar-lhe forte com rajadas acima dos 100 km/h, o mar a impor respeito, as ribeiras a encher e eles… nas nuvens. Não admira. São os mesmos que, quando está sol, reclamam por um bom ‘pé de água’ e que quando faz frio alegam uma provável queda de neve, não hesitando em ‘postar’ imagens de arquivo com as serras da ilha pintadas de branco, legendadas de saudade, de como “é linda a nossa terra”. São os mesmos que depois do ‘20 de Fevereiro’ se atiraram sem cuidado à Protecção Civil e à Meteorologia por não terem alertado a população a tempo e horas para a aluvião. São os mesmos que passam o dia de máquina fotográfica na mão à procura da desgraça ou não deixam o conforto do lar quando o povo precisa de ajuda. São os mesmos que de forma displicente e irresponsável autorizam excursões pela ilha em dia de recolher recomendado, tudo fazendo para que os turistas levem da Região emoções irrepetíveis e recordações radicais, entre as quais, na melhor das hipóteses, a provável ida às urgências.

O último alerta vermelho deu azo a novos delírios, agravados por virem de gente formada, pelos vistos, em formato Relvas, e que tem a distinta lata de acusar de “alarmistas” quem avisou para o pior e de gozar com aqueles que, sobre os efeitos e as causas do mau tempo, vão dando notícias e mantendo as populações informadas.

O empenho generalizado dos jornalistas desta terra em situações de catástrofe não merecia tamanha ofensa. Nesta profissão, salvo desprezíveis excepções, ninguém anda à procura de louvores, nem de reconhecimentos públicos, nem de tachos, nem de prateleiras douradas. Apenas tenta cumprir com o seu dever de informar com rigor, fornecendo a quem lê, ouve e vê os elementos necessários para que possa saber mais e decidir em consciência.

Esta generosa missão merecia respeito. Muitos arriscam a vida para contar a dor sentida por quem tudo perdeu com as chuvas traiçoeiras. Outros desafiam medos para trazer testemunhos que ilustram o efeito devastador do mau tempo. Todos querem evitar desgraças, desespero e boatos como os que viveram a ‘20 de Fevereiro’ porque na altura não houve ‘alerta máximo’.

PS. Um dos especialistas no bom tempo presenteou-nos ontem com considerações que denotam uma 'estima' peculiar pelo nosso trabalho. "O DN está ao nível do Zandiga. Prevê desgraça... se não vier, ninguém se lembra… se vier, dizem logo… bem disse”. “Nunca se acredita nos jornais. Muito menos no DN”.“Consultei o site da Protecção Civil e não vi nenhum comunicado parecido com o que o DN diz. Os alarmistas são o DN... porquê?”. “Saibam que para o DN nada é impossível...”. O autor é figura pública e tem assinatura em obras do dito ‘desenvolvimento’ da Madeira nova. Liderou a Sociedade Metropolitana, já foi colunista do DIÁRIO e consta que agora, como tem tempo de sobra na Electricidade, assumiu-se como uma espécie de provedor do que aqui se publica. Fá-lo com regularidade, e pelo que sei, em regime ‘pro bono’. Pedro Ferreira, obrigado por tamanha generosidade e permanente atenção.