São às dezenas. Entram-nos pela casa dentro ao fim do dia, de todos os dias, embora de forma alternada. E sabem tudo. Alguns até sabem mais do que os decisores. Os comentadores estão para Portugal como as flores para a Madeira, o queijo para os Açores, o samba para o Brasil. Temo-los a rodos e para tudo. Eles comentam futebol e outras modalidades. Eles falam de medicina e novas tecnologias. Eles abordam o ensino e o ambiente. Tratam por tu a economia como quem arrisca palpites sobre as contas lá de casa. Eles sabem tudo. Mas os mais apreciados neste País são os comentadores políticos. Preenchem horários nobres das televisões e quase rivalizam com as novelas. O mais estranho é que a maior parte deles já passou por lá, pelo lugar dos decisores, dos governantes a sério. Já tiveram a sua oportunidade de fazer melhor, e fizeram igual ou pior. E agora, por artes e magias desconhecidas, querem convencer-nos de que afinal tinham razão, de que os outros é que estão errados, de que eles ainda sabem do mister. E o País, parado, paradinho, assiste a tudo. Assiste e compra tudo. O desfile de sábios vai fazendo opinião, vai formando mentalidades, vai criando ideias. Isso, só por si, não teria nada de mal, mas se juntarmos a este modelo em que são mais os comentadores do que os verdadeiros decisores, as coisas complicam-se. Sobretudo se tivermos em conta que 'não há almoços grátis', que muitas opiniões são puras encomendas que procuram abrir brechas e fazer caminho. Não necessariamente o caminho da verdade, mas o caminho que alguns outros, nos bastidores, pretendem percorrer. O resultado destas manobras está à vista: temos um País, o nosso, este Portugal que herdámos, ordeiramente seguidor de opinadores feitos pastores do rebanho, que ora vira à direita, ora à esquerda. Que às vezes, poucas vezes, ensaia uma fugaz partida que é logo reprimida pelo arreganhar de dentes dos cães sob as ordens dos pastores. E assim se faz um país alinhado segundo directórios de interesses de grupos e governado por comentadores. Só assim se compreende, por exemplo, os comentários de ex-políticos que vestem a pele de lebre e anunciam decisões que ainda não o são. Vale a pena recordar Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, ou, mais recentemente, o quase adivinho Marques Mendes. Estes da área social-democrata, mas já outros os precederam, e outros virão depois, da área socialista. São os que vão à frente abrindo caminho para as fugas da informação que interessa, não apenas fazer sair, mas sobretudo fazer sair de forma condicionada, controlada. Hoje, um governante que queira anunciar uma medida impopular ou experimentar os eleitores procura trocar os jornalistas pelos comentadores. Porque os primeiros perguntam e os segundos, salvo raras excepções, limitam-se a dizer o que é preciso ser dito, sem questionar, sem fazer ondas. A não ser quando se trata do adversário. Esta moda não é apenas nossa. Mas é aqui que nos últimos meses tem ganho cada vez maior expressão. E nas últimas semanas nada dividiu tanto os portugueses como o regresso de José Sócrates. De uma forma quase acéfala ou bairrista, uns eram a favor, outros contra. E no dia da primeira entrevista 1,6 milhões de portugueses estava a ver a RTP. Entre esses, estava eu. E confesso, sem qualquer constrangimento, que gostei da entrevista e do desempenho do ex-primeiro-ministro. Num Portugal em banho-maria, num país que deixou o pântano de Guterres pela tanga de Barroso, faz falta um abanão para agitar as águas. E faz falta sobretudo alguém que diga a Cavaco Silva umas verdades que o Presidente estava a precisar de ouvir. E Cavaco ouviu e das boas! Mas uma coisa é a entrevista de José Sócrates, e outras que lhe possam e devem suceder, outra coisa é ter Sócrates a dar palpites semanais sobre o que faz agora o governo quando o próprio Sócrates, quando era governo, manifestamente não o soube fazer. Não se trata aqui de qualquer limitação da liberdade de expressão, mas apenas de algum pudor e bom senso. A menos que queira voltar à política activa e experimentar ir a votos, os comentários de Sócrates prometem ser mais do mesmo: uma opinião formada e formatada para condicionar uns e fazer o frete a outros. Desses comentadores já nós temos de sobra. Do que precisamos mesmo é de verdadeiros agentes políticos e assertivos decisores, não de palpites ao estilo do 'fala-barato' lusitano. E, se não for pedir muito, de mais opinião própria.