Temos assistido em Portugal a declarações profundamente infelizes de quem deveria ter muito cuidado com o que diz e faz. Um banqueiro, Fernando Ulrich, virou-se para os portugueses e disse que perante a crise extrema que o povo vive, recomendou ainda mais austeridade porque na sua opinião o povo "aguenta, aguenta". Uma declaração profundamente infeliz ainda mais vinda de um banqueiro que como tantos outros tem uma cota de responsabilidade na atual situação: o seu banco não deve ter sido exceção no regabofe dos empréstimos aos sucessivos governos que acabaram por endividar escandalosamente o Pais e que agora o povo tem de pagar. Isto para não falar do BPN, BCP, etc.. Depois tivemos João Salgueiro - um economista sério e com visão - que também num rasgo de infelicidade afirmou que os desempregados deveriam ir "limpar a mata". Logo foi secundado por outros grandes empresários deste país - felizmente poucos - que concordaram com a sugestão acrescentando que a solução "de cortar a mata" também se aplicava aos desempregos licenciados. Que infelicidade. Este tipo de declarações além de infelizes são desmotivadoras e humilhantes, em especial para a nossa juventude. Como é obvio a grande maioria dos nossos jovens saídos da Universidade - e estamos a falar da geração mais bem preparada que o País alguma vez teve - perante estas declarações e falta de sinais de esperança o melhor que podem desejar para si é emigrar. E têm razão. O problema é que um País sem esperança e sem futuro é um País que já acabou… Mas existem outras declarações para juntar ao role das infelizes: a senhora Jonet (Banco Alimentar Contra a Fome) disse que "andamos a comer bifes a mais" e outra, secundada por alguns economistas, de que o salário médio dos portugueses - que já é baixo - ainda deveria baixar mais. A «cereja em cima do bolo» veio no entanto de Filipe Pinhal. Antigo administrador do BCP que ao que se diz tinha uma reforma de 70 mil euros por mês criou uma associação de reformados indignados porque agora só recebe 14 mil euros por mês de reforma! Como diria o Rei de Espanha: "Por qué no te callas?" As previsões macroeconómicas As previsões macro de Portugal são assustadoras. A economia continua de rastos e sem perspetivas de crescer; o desemprego a atingir níveis vergonhosos e socialmente perigosos; o défice não cede. Ou seja, o Governo - melhor, o ministro Gaspar - não conseguiu cumprir com nada do que prometeu apesar de terem sido aplicadas medidas drásticas de austeridade. Muitas dessas medidas necessárias mas outras profundamente erradas. O resultado está à vista. Já escrevi - e repito - que o ministro Gaspar já deveria ter saído do governo. É incompetente. Agora Vítor Gaspar defende parte daquilo que é obvio há muito tempo: é necessário renegociar o valor da dívida, o valor dos juros e os prazos de pagamento. Sem isso não há solução. O roubo descarado em Chipre As medidas adotadas pela União Europeia em relação a Chipre são próprias de «gangsters». Com o dinheiro guardado em segurança nos bancos decretaram uma taxa (um roubo) automática de 40% para depósitos acima dos 100 mil euros. Que loucura! Onde está a ética e os valores mais elementares destes dirigentes europeus que se permitem aprovar um roubo selvagem aos indefesos dos depositantes? Podemos dizer que algum desse dinheiro foi ganho irregularmente. Até pode ser. E quase de certeza que é verdade. No entanto também há muito desse dinheiro que foi ganho com trabalho. Para piorar só mesmo a declaração do Presidente do Eurogrupo que veio dizer que a solução aprovada para Chipre pode ser seguida em outros países. Está tudo louco! Parece-me que tudo isto é mau de mais para ser verdade. Vamos então desenvolver uma teoria da conspiração: será que o objetivo destes dirigentes é fazer com que os cidadãos europeus depositem o seu dinheiro apenas em alguns bancos considerados seguros? E quais são? Naturalmente os grandes bancos alemães… Ainda na questão de Chipre veja-se a insensibilidade e mesmo a estupidez dos dirigentes europeus: ao aplicarem uma taxa sobre os depósitos destruíram a confiança na praça financeira que é o Chipre. É que Chipre é um território pobre que só sobrevive graças ao turismo e principalmente à praça financeira que é. Como querem que o País recupere e pague o que deve se lhe destruíram a principal fonte de receitas? São estes os nossos dirigentes europeus... Para nos acalmar (aos portugueses) veio Vítor Gaspar dizer que a taxa nunca será aplicada em Portugal. Dois pontos: Gaspar quase nunca cumpre com o que diz e Gaspar aprovou a taxa ao Chipre, logo, por coerência, é sinal que gosta da solução… O Regresso de Sócrates Não merece muitos comentários. Apenas que a direção da Televisão Pública já deveria ter sido demitida. Entrevistar o Sócrates ainda é como o outro… convidá-lo para limpar a imagem semanalmente é de um descaramento assustador. É este o País que temos. Livro Explicar porque é que algumas Nações são ricas enquanto outras são pobres; porque umas Nações têm muitos alimentos e outras fome; porque numas só há doença e em outras cuidados exemplares de saúde. Daron Acemoglu e James Robinson tentaram e conseguiram explicações convincentes no libro "Porque falham as Nações", editado em Portugal pela Temas e Debates. Tratam-se de explicações históricas, políticas e económicas. Recomendo a leitura do livro.

Paulo Neves