Duarte L. Caldeira Para quem é da minha geração, início da década de 70, sempre ouviu das palavras dos nossos governantes, que a Madeira recuperou de um atraso de séculos relativamente ao continente. Sempre ouvi dizer que a Madeira era das regiões mais atrasadas do país e que Jardim conseguiu colocar a Madeira nos primeiros lugares de Portugal! Ora bem, analisemos o atraso e o desenvolvimento e desafio aos madeirenses da minha geração a relatar aqui se se lembram de tamanho subdesenvolvimento aqui na região. Sendo a minha mãe "cubana", do interior do país, mais propriamente de uma aldeia do distrito de Castelo Branco, durante a minha infância fui várias vezes à "aldeia". Essa pequena aldeia, com a escola desactivada pela desertificação do interior do país, era servida por estradas de terra, que no quente mês de Agosto, não era mais do que um levantar de poeira de cada vez que passava um carro. Todos os dias, a horas certas, lá ia a minha avó à fonte com bilhas na cabeça buscar água para bebermos, para cozinhar, para tomar banho, etc. A roupa era lavada num poço comunitário, ou no rio mais próximo, e cada vez que era preciso engomar a roupa, lá tinham de acender brasas para colocar naqueles ferros de engomar com chaminé. As noites eram passadas à luz de vela, candeeiros a petróleo e petromax. O pão era feito num forno comunitário, bem no centro da aldeia. Cada vez que precisavam de efectuar uma chamada telefónica, tínhamos de ir à mercearia do Sr. Henriques, pois era a única com um aparelho tão desenvolvido. Para fazer a ligação, era preciso dar à manivela dessa relíquia, que assim gerava energia para então atender do outro lado da linha uma telefonista, que iria estabelecer a ligação. Desligávamos o aparelho e esperávamos então que ele tocasse e finalmente conseguíamos falar com quem pretendíamos. Claro que o telefone era daqueles em que o auscultador era móvel preso por um fio e o microfone para onde falávamos, preso ao aparelho em si, que não era mais que uma caixa de madeira. Sem dúvida, momentos da minha infância diferentes e bastante divertidos, em que incluía passeios de burro pela aldeia. A aldeia, apesar de continuar desertificada, hoje tem as condições todas para um sítio dessa dimensão. Sem megalomanias, mas com o essencial para criar conforto e bem estar de quem na sua reforma volta à aldeia para passar a sua velhice. A Madeira, que há 35 anos atrás já era muito mais desenvolvida que estes locais do interior do país, foi se desenvolvendo mais, criando vias rápidas, ganhando autonomia, que não foi mais do que uma ilusão. Estamos bem servidos de vias de comunicação, de centros cívicos, de promenades, de jardins públicos, escolas em demasia, infraestruturas de desporto que dariam para várias vezes a população, mas cada vez mais pobres, com fome, com desemprego galopante e com vergonha social. Hoje em dia, temos os impostos mais altos do país para sustentar o falso desenvolvimento da Madeira, e ao fim de 35 anos, Jardim continua a dizer que a culpa está toda fora da região e na oposição, e quem governou, nada tem haver com o que por cá se passa!