"Que vida difícil deverá ser esta de treinador", pensava eu naquele final de dia ao passar por um café no Anadia e ao ver lá sentado, com um ar de poucos amigos, o treinador que havia acabado de sair do União. "E agora?" - perguntava-lhe um conhecido comum - "agora há que aguardar para acertar as coisas e depois partir para outra!" Mesmo treinando muitas vezes no campo ao lado, pois na época era eu um jovem "treinador-adjunto" da AD Camacha, confesso que pouco conheci daquele treinador que já estava de saída. Afinal, tal como muitos outros que por cá passaram, poucas foram as oportunidades para saber o que pensava ele realmente sobre o "treino de Futebol". Olhando para trás, dos treinos que vi, apenas me lembro vagamente da forma de alguns exercícios embora tenha bem presente a energia e "estilo" peculiar com que liderava as sessões. E agora, quinze épocas passadas, foi com imensa curiosidade que assisti à mediática "aula" desse treinador na Faculdade de Motricidade Humana e, sobretudo, os "doutos" comentários que se seguiram. Que o "mister" é o "mestre da táctica", que "fala certo com palavras erradas" e que "sim senhor, criou a sua própria ciência"... Sempre fui de opinião que a universidade tem de se abrir à comunidade. Ainda mais numa área essencialmente prática, onde a investigação deverá ser essencialmente aplicada e onde a teoria segue a uma larga distância o que se faz no terreno, como é o caso do "treino desportivo". E por isso questiono-me se alguma universidade se lembrou de ouvir esse mesmo treinador antes de atingir o patamar desportivo que agora ostenta. Sim, porque os seus conhecimentos técnicos e a sua competência na gestão dos processos de treino desportivo não surgiram apenas agora, com toda a certeza. Assim como a sua extraordinária tenacidade, persistência e confiança.

Nelson Caldeira, Treinador