
O regresso do engenheiro de duvidosa autenticidade ou do recém-mestre em Filosofia pela universidade parisiense, que não deixa de ser ex-primeiro-ministro de Portugal, está a chocar a nação. Quase ninguém consegue aceitar, nem fazer um esforço para perceber que motivações latentes estarão por detrás daquela aparição de José Sócrates no lugar de comentador da RTP, uma televisão que, sendo estatal, está obrigada a cumprir com o serviço público pelo qual todos nós, contribuintes, pagamos impostos além de uma absurda taxa audiovisual para ter uma emissão de qualidade, com conteúdos plurais, independentes e objectivos, selecionados com critério editorial e com a máxima transparência.
E no actual contexto de reestruturação de que está a ser alvo a televisão pública nacional, a presença de José Sócrates no papel de comentador da RTP não assenta bem a nenhuma das partes. E daí retiro duas leituras que me parecem óbvias e, simultaneamente, antagónicas. Uma sugere uma posição de afronta por parte da direcção informativa da RTP que procura deixar claro ao ministro da tutela, Miguel Relvas, quem manda nos conteúdos editoriais da televisão e que a redacção pode ser pressionável mas não é telecomando do governo.
Por outro lado, não é de excluir de todo (muito pelo contrário), que este novo subproduto televisivo tenha sido cozinhado nos bastidores do governo. Não vejo que o homem encontre ali um palco onde se vai projectar como candidato presidencial, apoiado pelo PS ou pela máquina que o pariu. Com o seu currículo, Sócrates será, antes, lançado sobre o assador da exposição pública e queimado em lume brando juntamente com a fumarola de fantasmas socialistas que António José Seguro tanto está empenhado em enxotar para o fundo do passado. Não espanta que Miguel Relvas tenha aplaudido a decisão e esfregado as mãos de satisfação. Farto de levar com 'Grândola, Vila Morena' pelos tímpanos adentro e sem dom nem nível para reagir dignamente, nada melhor do que trazer do exílio o odiado protagonista, esse Barrabás, para comprometê-lo publicamente e dividir as atenções nas ruas. Para mais facilmente continuar a governar.
Parece-me que o comentador José Sócrates é tão censurável na RTP quanto a censura de Jardim é incomentável no JM. E isto reflecte a alma dos nossos povos.
De um lado, uma nação padece de um súbito e histérico choque por saber que um ex-primeiro-ministro, um dos grandes coveiros do buraco financeiro pelo qual todos estamos a pagar caro, foi convidado para ser comentador de um programa de análise política na estação de televisão estatal que custa dinheiro mas respeita a lei da concorrência, honra o serviço público, atende ao interesse do telespectador, busca o pluralismo, a independência e a rentabilidade, apesar de todas as adversidades do quotidiano.
Do outro lado, um povo insular conformado, resignado e apático, que está farto de saber que o presidente do governo regional é o único coveiro (em 35 anos não houve outro) responsável pelo buraco financeiro da Madeira cujo preço todos estamos a pagar caro (alguns com a própria fome) e que exerce diariamente uma ingerência despudorada num jornal pago a 100% pelos contribuintes. Esse coveiro não assume apenas o papel de comentador. É também redactor, revisor, director e administrador de um jornal que subtrai diariamente 11 mil euros ao Orçamento para promover a batota a todos os níveis: informativa, comercial, política.
Um jornal que é despesista ao ponto de ser oferecido na rua com preço de capa de 10 cêntimos só para fintar a lei. Ali, não há serviço público, mas serventia ao poder público. A liberdade de expressão é anedota. O jornalismo propaganda e o pluralismo caricatura. A liberdade de imprensa é escrutinada pelo patrão. O compromisso não é para com o leitor, mas para com um só leitor para o qual são escritas prosas de contemplação da sua obra. O interesse do dono aparece no lugar do interesse público e o estatuto editorial é adulterado diariamente sem mácula, sob o silêncio comprometedor da accionista minoritária Igreja.
Há seis anos que o dono desse jornal sustentado pelo dinheiro dos impostos começou a marimbar-se para a rentabilidade daquilo que gasta, para a Autoridade da Concorrência, para a Entidade Reguladora da Comunicação Social, para os Tribunais e para todos os organismos que escapam à alçada do seu poder prepotente. Tudo isto é chocante, mas nada me choca mais do que a resignação de um povo que está a se marimbar para o esbanjamento do seu próprio dinheiro. "Só existe governo exterior a nós porque temos preguiça de nos governarmos a nós mesmos" (Agostinho da Silva). Será mesmo preguiça?