Os cínicos dirão que em matéria de canções, mais adequado a uma manifestação neste mês, talvez fosse "As águas de Março" de Tom Jobim/Elis Regina, que até fala do "fim do caminho" e de "promessa de vida"… Mas foi ao som da carga simbólica de "Grândola" que por todo o país avós, pais, netos, rugas e cabelos grisalhos, jovens desencantados e todo um povo indignado se reuniu em praças, ruas e avenidas e se exprimiu pela preservação do mandato ético do Estado Social, matriz indissociável da democracia, na crença e na esperança de um outro rumo para os destinos deste país e deste mundo, condenando a austeridade que comanda a política e os seus decisores cujas consciências mais parecem rendidas ao sermão da tentação. Ou não estivéssemos na Quaresma, o tempo de recordar ignóbeis tráficos que por trinta dinheiros se continuam a fazer por esse mundo fora, desde a noite fatídica do Jardim das Oliveiras …! As razões da manifestação estão no aprofundar das desigualdades e no empobrecimento do país, que os cortes nas remunerações de trabalhadores e pensionistas e o sucessivo aumento de impostos estão a causar numa população a quem roubam o futuro, cansada de constantemente ouvir estar no bom caminho, mas se confronta com a eternização da dívida pública, do défice e do desemprego, a prova do falhanço do governo e a inutilidade dos sacrifícios impostos. E ironicamente a única estratégia em matéria de políticas de emprego é despedir funcionários públicos, ao arrepio do compromisso assinado em concertação social. A crença nas virtudes do empobrecimento leva Passos a estar contra o aumento do salário mínimo nacional e até reafirmar sem rebuço a sua vontade de o diminuir… Que agenda anda este Primeiro Ministro a defender, é a dúvida que se coloca. É séria a situação do país, incerto o amanhã. Iremos lá com moções de censura/confiança, como as que temos visto? Sou dos que creem na necessidade de se repensar os partidos políticos e a sua lógica maniqueísta de pensamento - só se pode ser a favor ou contra as suas determinações e cânones - porque a realidade é cada vez mais complexa e não se compadece com programas, argumentários e guiões partidários, ambições pessoais de carreira, estratégias e táticas de luta e conquista de poder, fechados que são, as mais das vezes, ao saudável exercício da crítica, por essa aberração estatutária da disciplina partidária. O exercício da liberdade política e da acção partidária não pode resumir-se à satisfação de clubes de votantes, ou à contabilização da dicotomia maioria/minoria após eleições, ou ainda à obediência cega a orientações aparelhísticas. Não interpelar estas práticas é comprometer a democracia. Como bem fundamenta o Padre José Tolentino Mendonça, no Expresso/ Revista de 9 de Março. Não há democracia quando a riqueza está concentrada nas mãos de uns poucos, enquanto a esmagadora maioria empobrece. Não há bem-estar com um Estado Social destruído, com salários baixos, desemprego, ou com uma política fiscal que opera uma redistribuição ao contrário, como podemos ver nos lucros exorbitantes de determinados grupos económicos imunes aos sacrifícios da crise. Não há democracia quando insensivelmente se lava as mãos das funestas consequências das decisões políticas nos pobres, abandonando-os à sua sorte, como se cada um fosse responsável pelo berço desigual onde nasce. A História mostra em suficientes e elucidativos documentos o que nas últimas décadas o neoliberalismo tem trazido às democracias ocidentais, com políticas de desregulação financeira, austeridade e aposta numa economia de serviços: desemprego, pobreza, recessão económica, estagnação e retrocesso social. Veja-se, leia-se, reflicta-se, questione-se e compreender-se-á todo o percurso descendente de inversão económica, social e laboral rumo à desvalorização do trabalho e ao empobrecimento, bem como o credo da austeridade da equipa incompetente e insensível que nos governa, comandada por uma perigosa deriva europeia a partir de Berlim. Ou estude-se a História que alguns comentaristas mediáticos, ignorantes, rendidos aos 30 dinheiros para nos fazerem a cabeça, entendem não servir para nada! O que está a acontecer em Chipre envolverá mais do que 30 dinheiros… Depósitos ilegais? Lavagem de dinheiro? Um paraíso fiscal? E ninguém regulou? Ou ignorou, porque servia interesses financeiros? Será que podemos confiar as nossas poupanças aos bancos? A banca. Sempre a banca, os seus desmandos, a ganância e o conluio dos responsáveis políticos (como os "nossos" BPN, BPP e afins, financiados pelo contribuinte e onde a história do nosso défice radica). Um parêntesis: Não seremos todos vulneráveis a esta febre do ouro, esta crença na tentadora possibilidade de conseguir depósitos bancários generosos, habilidades mágicas de dinheiro fácil, riqueza, bem-estar, obtidos sem esforço e sem trabalho? Não guardaremos do universo maravilhoso da infância, do "illo tempore", a ideia mítica da conquista do tesouro, a nostalgia do paraíso perdido, algo que nos liberte da profecia que nos condenou (mas não a todos!) a conseguir o pão com o suor do nosso rosto, com dor, com sacrifício…? A banca estudou bem as fraquezas humanas! E haverá sempre contribuintes anónimos para pagar os muitos 30 dinheiros do seu resgate…

Júlia Caré