1. Jardim gaba-se de ter a receita ideal para tirar Portugal da crise, a Europa do caos e o Mundo das incertezas. Disse-o mais uma vez antes e depois de mais uma 'escapadinha' europeia, desta feita a anteceder as domésticas e fastidiosas férias pascais. Em Lisboa todos já sabem que o génio só avança contra si próprio. Mas é expectável que em Bruxelas, Moscovo e Washington os menos avisados possam ter já redigido carta de chamada a tamanha sumidade. Terá sido à espera dos seus bons ofícios que as negociações com os ministros das Finanças da zona euro sobre as condições para o resgate de Chipre começaram ontem com um atraso de quatro horas? Como pode alguém que não tem capacidade para gerir um poio e que não tem autorização para comprar papel higiénico fingir que é credível e visionário?
2. Os organizadores de manifestações interrogam-se. Afinal, quem são os 25 mil desempregados madeirenses? Onde vivem? Já emigraram todos? De que é que estão à espera para protestarem em massa contra as políticas que geram pobreza, fome e miséria? Talvez o poder regional saiba. Quem classifica de "vadios" os lesados pela irresponsabilidade governativa deve conhecer o paradeiro e número daqueles que contribuem para o "esforço louvável". Na prática, são vítimas dos investimentos sem retorno e dos calotes por pagar. Mas será que esta gente que tem sofrido doloroso flagelo público não tem direito a decidir sobre os caminhos a seguir no inevitável ajuste de contas?
3. Partiu da cidadania activa uma petição contra a participação do Governo Regional no Jornal da Madeira. Numa altura de crise, o fechar da torneira da propaganda pouparia à Região 5 milhões de euros por ano, verba que daria para atacar dramas sociais, e libertaria o JM para que pudesse fazer jornalismo plural e de serviço a todos os madeirenses. Apesar de mais útil, a petição que relega os "filhos do carro preto" para a vigilância das sua quintas e pede a extinção do patrocínio escandaloso com dinheiros públicos de caprichos pessoais e ideologias decadentes tem ainda bem menos signatários do que a excitação nacional, contra e a favor, em torno do regresso do comentador Sócrates à RTP. Que dizer de um País no qual os atentados à existência da imprensa livre, a concorrência desleal, a desregulação do mercado e o esbanjamento de bens colectivos são mais tolerados do que as legítimas opções editoriais de cada meio de comunicação social? Perdeu-se a noção do ridículo ou deixou de haver diferença entre o essencial e o acessório?
4. O bispo do Funchal é dos poucos católicos que ainda não percebeu que a cúpula da Igreja tem novo líder, por sinal avesso ao 'status quo', a frases feitas e a protocolos. D. Cavaco Carrilho vive no passado. Em vez de olhar ao redor e abordar os problemas "que se abatem sobre os mais fracos, a sede de dinheiro e poder, a corrupção, as divisões, os crimes contra a vida humana e contra a criação", como solicitou o Papa Francisco, preferiu citar o emérito Bento XVI, imaginem, na tentativa de alertar os jovens para os perigos do demónio chamado Internet e redes sociais. Quem senão a Igreja Diocesana e os seus principais responsáveis evidenciam maior propensão para o "risco da dependência, de confundir o mundo real com o virtual, de substituir o encontro e o diálogo directo com as pessoas pelos contactos na rede"?
5. A trupe 'Francisco & Cª', que há 30 anos participa na Festa da Flor e recebeu a medalha de mérito turístico no ano passado, foi excluída do cortejo deste ano pela Secretaria de Turismo. Apesar do responsável pela trupe não querer entrar em polémicas e aceitar as justificações dadas pelo Governo, convinha perceber se a secretaria acha que é a um mês e meio do evento que se tomam decisões destas, quando os materiais estão já comprados, gente convidada e os trajes feitos? E quem manda preocupou-se em saber quanto é que o Francisco Dias já havia gasto no projecto deste ano?
"A dúvida é o princípio da sabedoria". (Aristóteles)