A imagem da orquestra de salão a tocar até ao último momento, enquanto o 'Titanic' está a ser engolido pelo oceano, é tão icónica quanto verídica. O sorriso quando se está de caras com a morte e a abnegação demonstrada pela vontade férrea com que se consegue reprimir os seus próprios gritos de terror para oferecer algum conforto aos seus companheiros de viagem que brevemente vão partilhar o mesmo destino, fizeram de Wallace Hartley, violinista e líder do grupo de oito músicos, todos eles perecidos no naufrágio, um herói. A saga do violino, encontrado numa caixa amarrada ao seu corpo, os dois a flutuarem dez longos dias antes de serem encontrados, não é nada menos do que extraordinária. Tendo sido uma prenda da sua infeliz noiva, o violino foi-lhe posteriormente devolvido para, depois da sua morte em 1939, passar pelo Exército de Salvação e uma professora de violino e, já no seu destino final, acabar num sótão inglês, onde foi encontrado em 2006. Sete anos e milhares de libras gastas em peritagens depois, foi agora inequivocamente confirmada a sua origem e o violino do herói, avaliado em mais de cem mil euros, será brevemente exposto no Belfast City Hall, na Irlanda, curiosamente apenas a um quilómetro de distância do sítio onde o navio foi construído. Assim termina mais uma roda de eventos que comprova o velho ditado de a vida ser mais estranha que a ficção. Estou certo de que há muita, mas mesmo muita gente por aqui que espera, confia e reza de que a história que presentemente está a ser escrita não seja tão estranha quanto isso, que a nossa realidade não demonstre qualquer semelhança com aquela acima descrita, nem por coincidência, e que os nossos heróis dos violinos e demais instrumentos poderão estar a sorrir simplesmente por vislumbrarem um futuro digno, prometedor e enaltecedor.
Robert Andres - Musicólogo