Quando chegou a casa naquela quinta-feira, nas vésperas de acabar as aulas, estava desolada, frustrada, triste. Escreveu uma sms ao pai, chorou, voltou a apelar ao pai, ligou-lhe e, quando finalmente conseguiu exteriorizar o que sentia, apenas lhe disse que aquele fora o pior dia da sua vida, uma vida de pouco mais de catorze anos que, naquele instante, pesavam mais do que cem. O pai estremeceu e, por segundos, o pior dia da vida dela transformou-se no pior dia da vida dele. Pouco interessa se era motivo para tanto ou não, se era drama a mais ou não, se fazia sentido ou não, o facto é que ambos, menina e homem, filha e pai, se viram unidos pelo mesmo desamparo. Um porque sentiu o mundo desabar aos seus pés, o outro porque nada podia fazer para evitar isso. E os dois porque uma professora de português desferira, talvez inadvertidamente, um simples comentário capaz de destruir o trabalho de semanas e, pior do que isso, a paixão de uma adolescente pela leitura. Tudo aconteceu na aula de português da jovem, aluna do 9º ano de escolaridade, no âmbito do chamado oral refletido, espaço de partilha de experiências de leituras que tem o objetivo, entre outros, de desenvolver a capacidade comunicativa dos mais novos, pondo-os a dissertar sobre uma obra literária à sua escolha à frente de um auditório, constituído pelos seus pares e professor. É claro que, por muito nobre que seja o princípio subjacente a esta componente do programa, os alunos a abominam, encarando-a como um verdadeiro adamastor que têm de ultrapassar, caso queiram levar para casa uma positiva. E, se a quiserem alta, terão de esquecer os nervos, o constrangimento e caprichar no produto final porque dele depende cerca de um terço da nota. Assim o fez ela desde o primeiro segundo. Leu, atentamente, as sugestões do Plano Nacional de Leitura e, depois de demorar-se na possibilidade de escolher O velho que lia romances de amor, optou por Os piratas, de Manuel António Pina. Não se importou com o facto de o Ministério da Educação sugerir a obra para o 2º ciclo. A literatura, afinal, não tem idade. A forma de lê-la, de explorá-la, de interpretá-la é que tem e ela, da sensibilidade dos seus catorze anos, sabia que o livro ia muito além. Extasiou-se com a leitura, devorou-lhe os sentidos e, triunfalmente, percebeu o alcance do título - os piratas, disse-o ao pai, são aqueles que perturbam a normalidade da existência e, por isso, precisamos tanto deles para transformar a nossa vida. E quis partilhar essa boa nova com a turma. Quis, também ela, ser pirata e tomar de assalto os seus colegas, mostrando-lhes que sair da normalidade implica reinventar-nos e, provavelmente, tornarmo-nos melhores. Brilhante lição de vida suportada por outra não menos brilhante exposição em powerpoint a fazer jus às exigentes demandas de qualquer oralidade que se preze. Tudo a postos. Entusiasmo ao rubro e, no abrir do pano, no preciso momento em que anuncia a obra de eleição, a voz cáustica da professora interrompe para manifestar a sua "franca desilusão" pela aluna em causa, ela, ter, nada mais, nada menos, do que escolhido "uma obra para criancinhas". A gargalhada coletiva subiu na mesma proporção do rubor da jovem que, num ápice, se sentiu passar de bestial a besta. E seguiu-se o descalabro... a voz trémula, a gaguez incontrolável, o peso descomunal dos minutos, a branca, a leitura automatizada dos diapositivos e o remate sem qualquer rasgo de brilhantismo. Depois, a procura desesperada pelo colo do pai que, por acaso, é meu amigo e que, numa conversa de café, me contou o sucedido, deixando-me a pensar, a mim que também sou professora e que também tenho comentários infelizes, na força das palavras ou da ausência delas. Lembrei-me de que, numa relação, seja ela entre quem for, o que é dito ou fica por dizer pode destruir ou, simplesmente, deixar de construir. Porque as palavras são assim, manipuladoras, matreiras e até mal intencionadas. Quando pronunciadas, têm sentidos que se perdem pelo caminho, ganhando outros à chegada, sempre piores. Escapam, de facto, ao controlo de quem as diz, ficando à mercê de quem as ouve. Ganham vida própria e, por vezes, se tornam mais fortes do que os próprios factos. E porque é assim, por momentos, fiquei angustiada com a possibilidade de, enquanto professora, querendo ajudar, desajudei por ter dito, ou calado, o que para mim não era assim tão importante ou era óbvio de mais. Se o fiz, que me perdoem os meus alunos. Não foi por mal. Apenas porque, por vezes, mesmo sem querer, os professores podem ser piratas de má categoria.

Eker Sommer