Não sei em que morada te encontre. Não sei que livro as tuas mãos tocavam antes de. A manhã inteira indecisa: choveu muito, agora sol. Subi a calçada onde primeiro te encontrei, guardado em casa nossa. Eu gostava da inclinação do chão da cozinha, antiga como o teu coração. Tudo em ti era aprumo, pormenor. Os casacos, os livros, os quadros. Havia música no gira-discos e o teu silêncio par dos trabalhos de casa a fazer sobre a mesa da sala, coberta por um pano verde. A janela estava hoje fechada, chovia. A meio da calçada entrei numa livraria muito pequena. Dedicado, o Sr. José perguntou-me o que procurava eu. Disse-lhe 'não sei, espero um livro que me encontre a mim'. Demorei-me. Embrulhou em papel o que escolhi (aquele que o meu coração escolheu). Quando eu saía, as suas palavras pararam-me o passo: 'leva a eternidade na carteira'. Tentei sorrir, tremi. Eu que não sei em que morada te encontre nem que livro as tuas mãos tocavam antes de. A eternidade a tiracolo. Depois da calçada, depois do largo, depois da Sé, uma outra casa tua, o corredor muito estreito, estantes altas, cores fortes, quadros calados como tu (que medias o peso e o compasso de cada palavra, sílaba a sílaba, a tua gaguez tão tímida). Não saberei o que aprendeste nos tantos livros que leste e a que deste morada nova. Lembro-me das tuas mãos atentas a tocarem os veios de linha a unir páginas antes da lombada as cobrir, do teu olhar catraio a mostrar-me as letras que gravavas na capa de cada livro que habitou as tuas mãos. Não tive tempo para te contar que passei tardes do verão passado a arrumar os tintins, as cadernetas de cromos, os livros da colecção vampiro, os jl e o atlas que estão guardados no quarto em que antes ficavas. Ainda lá está a cortina tão delicada que escolheste para a janela. E duas cadeiras, uma para os casacos, outra para as camisas. Agora as costas nuas. Na fotografia de ti que eu não sabia ser a última deitaste a língua de fora. Sorríamos. Escolheste ser cinza, ar. Há uma carta com três datas. Tanto e tão breve tempo. A caligrafia justa, uma linha decidida sob a tua assinatura, duas folhas que guardaste contigo durante oito anos até esta espécie de eternidade de te ler agora. Aconteceu como desejaste: como se pela auto-estrada para, em grande velocidade, te livrares de apodrecer em natureza, disseste. Sabias que o importante é 'ter o amor de alguém que amas, muito chegado a ti'. 'Dizer que tenho amor por ti?', pergunta tua aqui escrita, com a certeza de que 'tudo são palavras desnecessárias'. Sinto que são. Ainda assim, acho que gostarás de saber que o livro que o Sr. José embrulhou é 'Eternidade' (de Ferreira de Castro, tu sabes). As primeiras palavras ensinam-me por que foi este o livro que o meu coração escolheu: é 'a história de todos nós, que queremos ser eviternos e temos de morrer, que queremos ser felizes e nunca o somos, integralmente'. Nele há 'uma voz remota' que 'dura não sabemos há quantos milhões de anos e durará, talvez, muitos mais ainda, uma voz que te dirá quanto sofremos e lutámos para que tu possas viver doutra maneira e sorrir, porventura, de nós próprios...'. As tuas últimas palavras escritas duram na folha de papel, demoram por dentro do coração: 'Ainda aguardo. Que bom é viver!' Esta será a morada onde te encontro, com a eternidade a tiracolo. Quarenta anos de ti em mim. Tenho - temos - amor por ti.
Diana Pimentel