A propósito da recente tentativa do leilão milionário de obras do 'street artist' Banksy, gostaria de partilhar convosco uma breve reflexão sobre o Ser próprio da Street Art hoje. A Arte começou, provavelmente, por ser uma arte corporal e ornamental; só depois se expandiu para uma arte parietal. A Arte, nessa altura, era indistinta da Vida, no sentido em que estava ligada ao quotidiano do Homem. O Homem criava como respirava, comia, fazia amor, e construía ferramentas. O "artista" era toda uma comunidade de fazeres e de vivências em comum… Milénios depois, a vontade "en plein air" de impressionistas e pós-impressionistas, reinaugura o desejo de reunir Arte e Vida. Tal vontade atravessa quase todas as vanguardas artísticas do século XX, desembocando nos 'avatares' heterodoxos do Situacionismo. Foi aí que a Arte e a Vida reunidas foram para a rua, abolindo todas as hierarquias, corroendo todos os poderes, abrindo todos os corações… A Street Art é aonde vem desembocar o essencial e o Ser próprio profundos do fenómeno criativo. Banksy é o perfeito herdeiro do primordial instinto artístico humano. Pela sua recusa do prestígio individual (a "moeda simbólica" da economia espetacular) e por não querer entrar no Mercado "todo poderoso". Também pelas consequentes preocupações éticas, ambientais, políticas e sociais que permeiam todas as suas obras e performances e, ainda, por rejeitar o mofo académico e o snobismo "casaco príncipe de Gales" dos que gravitam em torno do fenómeno artístico à procura de tudo, menos de Arte e de Vida… É tempo de voltar a Ver ao ar livre. Aproveitemos a Primavera para celebrar a Vida como Arte e transformar o mundo! [email protected]
Miguel Santos, Cooperante da "Espaço às Àrtes - Cultura Ponto Zero"